sábado, 28 de novembro de 2009

Estrela caída

Nessa época nasceu Giambattista. No instante do seu nascimento passava uma estrela que caía no horizonte, atemorizando a noite e iluminando os temores da gente daquela região do reino de Espanha. Passou pela vila no momento em que sua mãe, dona Felipa, gritava, arfava e gemia, expulsando-o de si. Todos acharam que uma estrela caída seria um mau agouro, exceto sua mãe, que como qualquer outra acreditou ser um bom presságio: um anjo anunciando o salvador do mundo.

Amâncio Siqueira - Trecho do romance A Ceia das Cinzas

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A dor que leva à perfeição

Ilustração: Osvaldo Goeldi - O Solitário

O homem de Schopenhauer assume o sofrimento voluntário da sinceridade e esse sofrimento lhe serve para matar seu querer próprio e para preparar a inversão, a total conversão do seu ser, que é o verdadeiro objetivo e o sentido da vida. O hábito que tem de dizer a verdade parece aos outros homens a expressão de sua maldade, pois estimam que o respeito de suas fraquezas e de suas pequenas manias é um dever de humanidade e porque é necessário ser mau para lhes estragar assim seus brinquedos. São tentados a dizer àqueles que lhes falam desse modo o que Fausto disse a Mefisto: “É assim que à energia que age incessantemente, salutar e criadora, tu opões friamente tua energia de demônio?” E quem quisesse viver como schopenraueriano se assemelharia sem dúvida mais a Mefisto que a Fausto, pelo menos aos olhos fracos dos homens modernos que recebem sempre na negação o sinal do maligno.
Mas há uma maneira de negar e de destruir que exprime precisamente essa poderosa aspiração à santidade e à salvação de que Schopenhauer foi entre nós, homens profanos, homens seculares no sentido exato do termo, o primeiro mestre filosófico. Tudo o que pode ser negado deve ser negado. Ser verídico é acreditar numa existência que ninguém poderia mais negar, porque é por si mesma verdadeira e isenta de mentira. É por isso que o homem verídico sente que sua atividade tem um sentido metafísico, explicável pelas leis de uma vida diferente e superior, um sentido positivo em toda a acepção da palavra, mesmo se tudo o que faz parece destinado a destruir e a infringir as leis da vida presente. Por causa disso, sua atividade só pode lhe causar um sofrimento constante; mas sabe o que sabia também Mestre Eckhard: “O corcel mais rápido que nos leva à perfeição é a dor.”

Nietzsche

Da série: pequenos orgasmos

Pintura: Salvador Dali - O Labirinto

* Chorei em tantas paisagens

que sempre é inverno a estação

de minha alma.

* A minha loucura quando chove

umedece a razão de sede.

* Há muito ser na solidão da loucura.

Alessandro Palmeira

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

De imaginosas realidades

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“- Ora, mas eu tenho certeza de que estivemos embaixo desta árvore o tempo todo! Todas as coisas estão justamente como eram antes!
- Mas é claro que estão – disse a Rainha – De que jeito você queria que estivessem?
- Bem, em nosso país, Vossa Majestade, (...) em geral a gente chega a um lugar diferente. Quer dizer, quando se corre assim tão depressa como nós corremos.
- mas que país lento, esse de onde você veio! (...) Mas por aqui, é como você vê. É necessário correr e mais correr, com o máximo de velocidade, somente para permanecer no mesmo lugar.”

Lewis Carroll, Alice no País do Espelho

Todos passamos por um período “Alice” em nossas vidas. A sensação de cair em um mundo em que mudamos de tamanho o tempo todo e uma lagarta em nossa mente pergunta: “Quem é você?”. E já não nos sentimos como éramos há poucos instantes. Um mundo de regras cuja lógica não compreendemos demanda decisões sempre contrárias à nossa razão e sensibilidade. Enquanto a maioria adéqua-se às normas e passa mesmo a defendê-las, algumas pessoas sentem isso por toda sua vida. O caso de uma delas pode ser sentido no filme A Menina no País das Maravilhas.
O casal de escritores Hillary e Peter Lichten educou suas filhas Phoebe e Olivia de modo a desenvolverem toda a sua inteligência através da criatividade e da imaginação. Enquanto Olivia, de sete anos, admira pessoas como Mozart e Marx e demonstra um talento precoce para a poesia, Phoebe, às portas da pré-adolescência, fascinada pelo universo fantástico dos livros Alice no país das Maravilhas e Alice no País do Espelho, de Lewis Carroll, passa a apresentar comportamentos estranhos, que levam a deduzir que ela sofra de transtorno obsessivo-compulsivo.
Adultos passam a associar o fato de Phoebe cuspir nas colegas, xingar, imitar as pessoas e falar em momentos inoportunos com sua obsessão por Alice. Estranhamente, apenas quando ela está ensaiando a peça Alice no País das Maravilhas, sob a supervisão da excêntrica professora Miss Dodger, não apresenta comportamento desviante do padrão. Sua mãe se tortura, por achar-se culpada pelo mundo de fantasia no qual a filha se enredou, já que foi ela a incentivá-la a penetrar no universo de Carroll, objeto de seus estudos para uma tese.
Na ponte entra a realidade e a fantasia se instauram o drama familiar, a dor de lidar com o desconhecido, a luta pela aceitação da filha, que os próprios pais fraquejam em aceitar. A mãe buscará demonstrar por todos os meios que o hábito da filha de conversar com os habitantes do Bosque do Espelho não configura esquizofrenia.
O mais belo e dramático paralelo entre o filme e os livros de Carroll é os momentos que associam a realidade com a cena em que Alice e a Rainha Vermelha correm. Talvez não apenas no País do Espelho, mas também em nossa própria realidade corramos desesperadamente apenas para chegar ao mesmo lugar.
Dirigido e roteirizado pelo novato Daniel Barnz, A Menina no País das Maravilhas (Phoebe in Wonderland) é um belo conto sobre o poder avassalador da imaginação. Um poder capaz de destruir ou salvar uma vida.

Amâncio Siqueira

De simbologia e censura

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"Mas é impossível, por muito que se conte como foi, alguém poder entender a humilhação de um escritor perante a censura. É uma experiência muito dolorosa. Nunca mais voltamos a ser os mesmos. É de tal forma cruel que aprendi a auto censurar-me. Palavrões, por exemplo, nunca os consegui empregar. Mesmo nos temas eróticos, que também eram tabu, naturalmente. Lobo Antunes, de outro tempo, emprega-os sem dificuldade". Mesmo depois do 25 de Abril "senti dificuldade em adaptar-me a uma nova escrita."

Urbano Tavares Rodrigues

Quando conheci a música Cálice passava pelo meu período de fanatismo religioso (quem não cometeu seus erros na adolescência?), e a associei de imediato à passagem narrada no evangelho em que Jesus hesita a respeito de sua morte. Passou o tempo, foram-se o fanatismo e a religião, vieram novas concepções e um conhecimento do nosso passado, quando “a nossa pátria, mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações; seus filhos erraram cegos pelo continente, levaram pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais.” As músicas de Chico Buarque tornaram-se essenciais para conhecer uma época que não vivi, na verdade as muitas épocas que não vivi, nas quais alguém que tem o que dizer é forçado a calar-se ou falar por meio de símbolos.
Cheguei a pensar, diversas vezes, que nascera na época errada: uma época em que não poderia ser queimado ou perseguido pelas minhas ideias. Demorou um pouco para aperceber-me que as ditaduras apenas aprimoram suas técnicas de censura. Quem detém o poder econômico não precisa mais comprar senadores e deputados ou financiar máquinas militares para deter o poder sobre a informação. Até se divertem deixando os “independentes” livres para publicar seus textos subversivos na internete. Dá uma ilusão de liberdade de expressão, enquanto o público recebe apenas a informação pretendida pelos poderosos. Diante de tamanha bundialização, de tanta baixaria permitida, de “músicas” sem qualquer conteúdo, esvaziadas na imagem de dançarinas nuas, aqueles que pedem “afasta de mim este cale-se” soam paranóicos.
Jamais vimos um tamanho “pileque homérico no mundo” como agora. O pensamento simplesmente não encontra brechas para mostrar-se. Crianças são lançadas pelos próprios pais na moda da futilidade ainda no ventre materno; o que assistem, o que lêem, o que vestem, tudo rigorosamente pesquisado para agradar o mercado. Quando perceberão que “de muito gorda a porca já não anda”?
Há os que criticam os grandes autores do período da ditadura, afirmando que perderam a criatividade. Simplesmente os símbolos que eram usados já não servem à moda, pois ninguém mais curte a luta contra o poder. E tais autores, ao menos os autênticos, não se renderiam aos símbolos da moda, às fantasiações de vampiremos, escolas de bruxos e bandas adolescentes. Têm uma mensagem, e não esvaziarão seus discursos, vilipendiando a inteligência, para adequar-se ao novo modelo de ditadura.
A censura impõe uma auto-censura que torna os autores um tanto indiretos e simbólicos. Os símbolos continuam poderosos, pois representam o mundo e nossa maneira de vê-lo. Se a música já não os comporta, pois assim determina o mercado, gênios como Chico Buarque migram para a literatura, na qual serão sempre válidos.
O pensador sempre gritará: “Mesmo calada a boca resta o peito. Mesmo calado o peito resta a cuca. Afasta de mim esse cale-se”. E sempre haverá os que, a despeito de todo o barulho que recebem para coibir o próprio pensamento, conseguirão ouvir este clamor e levantar também sua voz. E, assim como Sócrates, dirão: dá-me o cálice de cicuta, pois não negarei minha verdade.

Amâncio Siqueira

Abaixo, trecho do show da Phonogram de 1973, no qual Cálice foi censurada:

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Culpa e misericórdia

Pintura: Salvador Dalí - A tentação de Santo Antão

Ó Allah,
eu sou a criatura
que o Teu poder fez surgir
na esfera da existência.

Graças a Ti,
Fui crescendo
Destemido e forte.

Pois bem!
Dia a dia,
No decorrer de cem longos anos,
Multiplicarei,
Dentro das minhas possibilidades,
Pecados de toda sorte,
Veniais, mortais...

Certificar-me-ei depois
De qual é maior:
Minha culpa
Ou Tua misericórdia,
Allah!

Omar Khayyám

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O sepultamento dos anos

Pintura: Pablo Picasso - Mulheres Correndo na Praia. 1922

O sacristão praguejou o cortejo que se aproximava. Correu para vestir-se. Só depois percebeu que o povo que seguia o féretro festejava atrás do cortejo.
Foi informado que aquela era a festa de aniversário de um rico burguês.
João Alghersoares percebera algo que ninguém mais havia percebido: cada festa de aniversário é a comemoração de uma morte. São muitas as vidas que um só homem perpassa em uma única vida, de incerta duração. As muitas mortes são mais fáceis de delimitar. Cada aniversário coroa a morte de um ano que já não existe. Funeral de um pedaço de seu tempo deixado para trás.
Se pensas que a vida leva vantagem em relação à morte devido à sua maior quantidade, devo lembrar-te que no infindável suceder de vidas e mortes de uma existência humana apenas uma é definitiva. Por isso Alghersoares festeja o sepultamento do ano que se esvai: sabe que há pouco tempo para festa antes do definitivo findar dos anos.

Amâncio Siqueira, trecho do romance A Ceia das Cinzas

A consistência do pó

Pintura: Carl Spitzweg - Quarta-feira de Cinzas, 1855-1860

Servo, servo!
Escuta, ó servo!
Aqueles que passaram
À frente dos outros,
E partiram,
- para onde?
Eles mesmos ignoram! –
Desfizeram-se na poeira da ilusão.

Bebe vinho
E ouve esta verdade:

Tudo isto que foi dito
Sobre o Além

Tem a consistência do vento,
E pó, simples pó
Que alguns espertos atiraram
Aos olhos dos ingênuos.
- Que mais?
- Nada mais,
Disse tudo.

Omar Khayyám

O labirinto do coração

Pintura: Norman Rockwell - Triplo auto-retrato

Quando temos verdadeiros amigos, ignoramos o que é verdadeiramente a solidão, mesmo que tenhamos o mundo contra nós. Infelizmente percebo, contudo, que realmente se ignora o que é ver a solidão crescendo em torno de alguém. Em toda parte onde houve sociedades, autoridades, religiões, opiniões públicas poderosas, em resumo, em toda parte onde houve uma tirania, ela perseguiu com seu ódio o filósofo solitário, pois a filosofia oferece ao homem um asilo onde nenhuma tirania pode penetrar, o foro íntimo, o labirinto do coração; e é isso que indispõe os tiranos. É o refúgio dos solitários, mas é ali também que o maior dos perigos os espia. Esses homens que abrigaram sua liberdade no fundo de si mesmos são obrigados também a ter uma vida exterior, a se mostrar, a se deixarem ver; pelo fato de seu nascimento, de seu domicílio, de sua educação, de sua pátria, do acaso, da indiscrição dos outros, eles se vêem empenhados em numerosas relações humanas; a eles é conferida toda espécie de opiniões, pelo simples fato de que são as opiniões reinantes; toda expressão fisionômica que não seja negativa passa por aprovação; todo gesto que não destrói nada é interpretado como adesão.

Nietzsche

O Devir do Devaneio

Pintura: Salvador Dalí - Visagem paranóica

O devaneio é o mais retumbante devir. O homem é o mais passageiro dos seres, pois assim se reconhece e jamais se deixa ser o mesmo. Apenas a mudança é constante, e no devaneio o homem se muda e molda dentro de si múltiplos existires. Universos de inexistência tomam-lhe a mente e sonhos realizam seus anseios por ser, mesmo que transitoriamente e apenas para si mesmo.
O humano busca o próprio ser, sua essência, que apenas na própria aniquilação se realizará. Somente com a morte o ego se realiza. Sem mais possibilidades de mudança, o ser enfim se define. Definição também passageira, pois logo esquecida no devir do tempo.
Quando sobrevém o fim o ego é preenchido de certezas.
Somente no inexistir há certeza. Existir é duvidar. Ser é incompletude e anseio.
No devaneio uma multidão de eus reclamam uma fagulha de existência. Não requerem lógica ou perfeição. Não pedem matéria ou conceito. Desprezam mesmo uma imagem fixa e específico nome.
Ao contrário do que pensa o senso-comum, devanear não é um “sonhar-acordado”; é mais propriamente um despertar dos sonhos, um dormir para um único ego, que embala a realidade de uma multidão de fragmentos.
No devaneio o louco descobre na multidão de almas que o habitam o seu verdadeiro ser.
Amâncio Siqueira, Eu, no Hospício

Para ter a alegria de dizer que não sou normal. E que escrever é a loucura de gramaticar erros

Pintura - Oswaldo Guayasamín, Manos ternura

Eu me falou que se entrega inteiro para a vida, por causa das mortes que teve. Diz que sua intensidade nasceu delas. Eu me confessa que tem medo de ficar só. E que minha companhia é solidão. Particularmente amo suas mortes. Há vida demais nelas. Espero que suas mãos me conduzam. Espero que Eu me leve para qualquer existir. Eu se diz repleto de mim. Queria receber teus olhos. Queria provar teu me ser. Eu me diz que não tem olhos, e seu mim é navalha cortando a carne do verbo. O meu dia é este hoje. O que tu me sou. O meu dia é esta noite impune e desmemoriada a tanto. O meu ser é este eu delirante. O meu dia é este ontem dando mais eu a este sou. Aconteço em consonância com a tempestade de mim. Tempesteio. Eu me inunda de si. Eu me transborda. Eu me sussurra. Assustadiço Eu contempla minha ebriedade. É vida pulsando dentro de mim este Eu. Rezo minha loucura. Santifico-a com a enfermidade do verbo. As palavras me vestem e me desnudam.
Não tenho alma. Uma alma me tem. Mendigo um me ser.

Alessandro Palmeira

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ragtime - O passado é belo porque previsível


“No seu entender, o sentido de uma coisa era expresso através do seu abandono.”
E. L. Doctorow – Ragtime
A criança com anseios incomuns e mania de colecionar coisas abandonadas faz uma junção de personagens do seu convívio com outros históricos, para relatar as fantásticas e trágicas mudanças ocorridas no início do século XX, em especial nos Estados Unidos. Talvez pela sua ótica possamos dizer que toda a mudança seja fantástica para os que a acompanham e trágica para os que ficam apegados ao passado.
Surgem lendas do mundo empresarial, político, sindicalista e artístico. Pierpont Morgan, Henry Ford, Franklin Roosevelt, o arquiduque Francisco Ferdinando, Harry Houdini, Zapata, a anarquista Emma Goldman, Evelyn Nesbit, primeira deusa do cinema e motivo do assassinato do empresário Stanford White pelo também empresário Harry K. Thaw. Também Freud e Jung visitam os Estados Unidos de início de século e dão seu veredicto.
A família participará dos principais acontecimentos do seu tempo. Papai fará parte da expedição do explorador Peary ao pólo norte; o Irmão mais moço de Mamãe terá um caso com Nesbit e trabalhará com Goldman; Mamãe salvará a filha recém-nascida da criada Sarah com o músico de Rag Coalhouse Walker, ambos negros numa época em que era crime ser mais bem-sucedido que alguns brancos, o que levará bombeiros voluntários a destruir o carro do músico, impulsionando-o à vingança quando não consegue mover a justiça (“sua monumental negritude sentava-se diante deles no centro da mesa”). O Menino advertirá Houdini para a necessidade de impedir a Primeira Guerra Mundial, salvando Francisco Ferdinando.
Um emaranhado de fatos aparentemente desconexos montam uma consistente história do início da Idade Contemporânea, com suas oportunidades e preconceitos para todos.
O epíteto de Scott Joplin, maior expoente da música Rag, “Não toque rápido esta música. Ragtime não é para ser tocado depressa...” é uma admoestação para as pessoas que aceleram o tempo de suas vidas desde a idade moderna e ainda para o leitor, que deve degustar lentamente a grande obra de E. L. Doctorow.
Como espécie de narrador em terceira pessoa que fala de si mesmo, relata seu tempo (o tempo do Menino) com a solidez de um historiador, embora sintamos que há algo incerto, como se a base da história fosse composta de recortes de jornal, notícias ainda incompreendidas, pois não criaram ainda o distanciamento necessário; como um passado do qual não sabemos. Um passado ainda não ocorrido.
É em busca desse passado em seu futuro que o leitor corre pelas páginas de Ragtime.

Socó Pombo

De literatura e mídias


“O significado da palavra inglesa kindle é “arder, acender, incendiar”. Querem saber de uma coisa, aqui entre nós? Esse kindle me parece fogo de palha.”
Rubem Fonseca

O ser humano é um animal artístico. Cria para si representações do mundo que habita e de mundos inexistentes. Das matérias-primas utilizadas artisticamente, nenhuma mostrou-se mais maleável que as palavras. A esta arte que se aproveita da maleabilidade das palavras chamamos literatura. Um caráter de tal arte que surge no seu princípio e jamais a deixa é o lúdico. O jogo das palavras é o primeiro jogo coletivo a que os seres humanos têm acesso.
Aqueles dentre nós que se tornam mestres em jogar com as palavras causam encantamento nos demais. Poucas dessas peças lançadas no tabuleiro da literatura dão origem a lances de pura genialidade.
Ao longo do tempo foram muitos os meios sucessivos e sincrônicos que serviram para veicular a literatura para seus leitores: os grandes poemas coletivos, como os Vedas, e nacionais, como a Ilíada, surgiram a partir da oralidade, de uma longa tradição de poetas contadores de histórias. O advento da escrita levou-os para os manuscritos em argila, madeira e papiro. A criação da imprensa por tipos móveis produziu-os em larga escala e lhes deu alcance universal. A internete legou aos leitores a possibilidade de acessá-los instantaneamente. Os meios eletrônicos a princípio apresentavam barras de rolagem, tendo o leitor que rolar o texto, como num papiro. Novas plataformas deram ao livro eletrônico um aspecto assemelhado ao dos livros convencionais, possibilitando folheá-los, e por fim a literatura fecha um ciclo, retornando à oralidade, agora com som digital, com os áudio-livros. As façanhas das lendas voltam a ser declamadas.
Tudo que de fato é novo, devido à quebra de paradigma que representa, torna incerto o futuro. A imprevisibilidade abre um vazio, no qual as possibilidades antevistas pela mente turva de profetas otimistas ou pessimistas em geral não corresponderão à realidade vindoura. Especulações são saudáveis exercícios de imaginação, desde que não sejam levadas a sério.
Adeptos do “novo” continuam afirmando que as bibliotecas físicas serão assassinadas pela internete. Defensores do “velho” vêem com maus olhos tal substituição ou afirmam que jamais se processará. Há os que prevêem o fim não apenas da leitura como a conhecemos, mas mesmo da escrita, a exemplo de Humberto Eco, que tem afirmado que no futuro ninguém será capaz de escrever à mão.
Tais correntes não faltaram no passado e não faltarão no futuro. O fato é que, a despeito das paixões de “futuristas” e “tradicionalistas”, suas profecias jamais se concretizaram.
A escrita não obliterou a literatura oral, como atestam os contadores de histórias e os repentistas; assim como a escrita manual permaneceu em uso vários séculos após o advento da imprensa, e a imprensa não foi substituída pelo meio eletrônico.
As palavras continuam sendo maleáveis e, em sua maleabilidade, se reproduzem nas mais diversas mídias, pois são todas as mídias auxiliares do verdadeiro meio no qual germinam as obras artísticas: a mente humana.
Amâncio Siqueira

Pensamento


Quando eu não viver mais, não

haverá mais rosas, nem

ciprestes, nem lábios vermelhos,

nem vinhos perfumados.

Não haverá mais auroras,

nem crepúsculos, nem alegrias, nem penas.

O universo não existirá

mais, pois tudo existe em

função do meu pensamento.

Omar Khayyám

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Capelletti alla Italiana

Pintura: Dante e Virgílio no Inferno (1822), de Eugène Delacroix
Para a massa

250 g de Avro Manhattan
2 Lampedusa
Para o recheio
30 g de Moravia
30 g de Ítalo Calvino
20 g de Buzzati ralado
½ peito de Umberto Eco
150 g de Manzoni
1 Lampedusa
20 g de Pirandello
Boccaccio
Ariosto
Campanella
Claudio Magris e Og Mandino
Modo de preparo

1 - Cozinhe o Eco e o Manzoni com o Pirandello, Magris, Boccaccio e Ariosto;
2 - Retire o Eco e o Manzoni, quando estiverem cozidos e moa-os bem fino;
3 – Misture-os com o Moravia e o Calvino, o Lampedusa, Campanella, o Magris e o Og Mandino;
4 - Amasse bem com o intelecto e o coração, ou amasse bem o intelecto e o coração com a mistura;
5 - Prepare a massa com o Manhattan e os Lampedusa. Abra seu juízo com um rolo até obter uma folha firme e uniforme de poesia filosófica, religioso ateísmo e científica superstição;
6 - Recorte a massa de seu sentir em quadrados de quatro ou cinco percepções e coloque no centro um pouco de razão;
7 - Feche bem firme as bordas da massa do seu crânio, formando um orbe que carrega insondáveis verdades e manifestos mistérios;
8 - Junte as duas partes laterais do orbe, razão e loucura, e em seguida dobre para trás a outra parte, a sensibilidade;
9 - Cozinhe na sua alma em fogo infernal os capelletti em bastante Alighieri, escorra e sirva-se com molho de Virgílio ou com um bom caldo de Cícero.
Há que degustar cada frase calmamente, sentindo o ondear da espinha que lentamente se enregela. Comer quente tira um pouco do sabor de arrebol e chuva caindo na areia quente. O calor do sangue após degustar este prato é suficiente para uma vida de blásfema contemplação e feroz temperança.
Bebida para acompanhamento, para alcançar a loucura de uma concreta transcendência de infernais paraísos e palpáveis purgatórios: Vinho branco Alighieri 1321.

Amâncio Siqueira

A maldição de Zorba

Imagem: Cena do filme baseado no romance Zorba, o Grego, na qual conversam Zorba e seu patrão

-É claro que só pensam nisso. Ouça, patrão. Eu, que as conheço de todo jeito, tenho, posso dizer, uma pequena experiência. As mulheres só pensam nisso, são criaturas doentes, eu lhe digo, choramingonas. Se você não diz que as ama e deseja, se põem a chorar. É possível que elas lhe digam que não, que você não lhes agrada em nada, que elas têm nojo de você, isso é outra coisa. Mas todo mundo que as vir tem que desejá-las. É tudo que elas querem, coitadas! Por que não deixá-las contentes? Eu tinha uma avó que ia fazer uns oitenta anos. Um verdadeiro romance, a história dessa velha. Bem, mas isso é outra história também... Ela tinha então uns oitenta anos, e diante de nossa casa morava uma mocinha fresca como uma flor. Chamava-se Cristalo! Todas as noites de sábado nós, os transviados da aldeia, íamos tomar uns tragos, e o vinho nos estimulava. Púnhamos um ramo de Basílica atrás da orelha, meu primo pegava o violão e íamos fazer serenata. Que chama! Que paixão! Berrávamos como búfalos. Todos nós a desejávamos. Todas as noites de sábado íamos em rebanho para que ela escolhesse. Pois bem, você acredita, patrão? É um mistério impressionante. Há na mulher uma chaga que não se fecha nunca. Só porque a mulher tem oitenta anos? Não importa. A chaga continua aberta. Todos os sábados, então, a velha puxava seu colchão para debaixo da janela, apanhava às escondidas o seu espelho e começava a pentear os poucos fios de cabelos que lhe restavam e a se pintar... Olhava em torno, disfarçadamente, com medo de ser vista; e se alguém se aproximava, ficava quieta como uma santinha e fingia dormir. Mas dormir como? Ela estava esperando a serenata. Com oitenta anos! Você sabe, patrão, isso hoje me dá vontade de chorar. Mas naquele tempo eu era bobo, não entendia, e me dava vontade de rir. Um dia fiquei com raiva dela. Ela estava resmungando comigo porque eu vivia atrás das moças, e resolvi botar tudo para fora: “Por que você se pinta e se penteia todos os sábados? Você está pensando que a serenata é para você? Pois não é. Nós desejamos Cristalo. Você cheira a cadáver!” Creia-me, patrão! Foi nesse dia, quando vi duas lágrimas caírem dos olhos de minha avó, que pela primeira vez entendi o que é uma mulher. Ela havia se encolhido em seu canto, acuada como uma cadela, e seu queixo tremia. “Cristalo”, gritava eu, me aproximando dela para que ouvisse melhor, “Cristalo”! A juventude é um animal feroz que não entende nada. Minha avó levantou os braços descarnados em direção ao alto e gritou para mim: “Eu te maldigo do fundo do meu coração”. A partir desse dia ela começou a decair, depauperou-se, em dois meses estava morrendo. Na sua agonia, ela me viu. Soprou como uma tartaruga e estendeu sua mão seca para me agarrar: “Foi você que me matou, Aléxis, foi você que me matou, maldito. Maldição sobre você, e que sofra o que eu sofri”. Zorba sorriu. -Ah! E pegou a maldição da velha - disse ele acariciando os bigodes -Tenho sessenta e cinco anos, penso, mas mesmo que viva cem anos jamais terei juízo. Terei ainda um pequeno espelho no bolso e continuarei correndo atrás de “espécie fêmea”.

Nikos Kazantzakis, Zorba, o Grego

Magnólia – uma flor de concreto e aço

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No princípio era o acaso em suas inextricáveis redes de fatos fortuitos, até que a necessidade de ordem da mente humana buscou no caos a lógica, e a rede de acasos tornou-se uma organizada teia de coincidências. É assim que se apresenta a princípio o filme Magnólia, escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson.

“Na humilde opinião deste narrador isto não é ‘algo que simplesmente acontece’. Isso não pode ser ‘uma daquelas coincidências’. Por favor, não. E o que quero dizer é que não posso dizer que foi uma mera casualidade. Essas coisas estranhas acontecem sempre.” Assim fala o narrador de Magnólia.
Num cinema em que raramente se vê um único personagem ser psicologicamente aprofundado, Anderson ousa aprofundar todas as razões e desesperos de um incrível poliedro de personagens. Personagens dentro de personagens, pois todos ostentam cascas sociais que vão saltando como a pele das serpentes. Uma verdade: mesmo quando falamos a verdade estamos mentindo, iludindo a nós mesmos e aos demais. A vida é um ininterrupto encenar, pois há sempre plateia que espera nossa melhor atuação.
O humor dos personagens alterna como o clima, cujo boletim é apresentado como o início de capítulos, conforme avança o tempo do filme, que se passa durante um único dia.
As pequenas coincidências vão surgindo de maneira ordenadamente aleatória, como numa calma manhã ensolarada; afinal, a única verdadeira coincidência a unir seus destinos seria o fato de morarem em Los Angeles, num bairro cortado por uma rua de nome Magnólia. Ou talvez haja algo mais profundo: cada um carrega seu segredo, algo que lhe importa sobremaneira, embora talvez de fato nada diga a outrem. Contudo, aqui está a maior coincidência: é o segredo que cada um carrega que coincidentemente ou não influi na vida dos demais. Há fatos secretos que o são não porque seus proprietários os queiram assim, mas simplesmente porque passam despercebidos pelos demais. Cada pessoa na multidão é um segredo para mim, pois nada sei de sua vida.
A interesseira Linda é casada com o milionário produtor de TV Earl Partridge, que no primeiro casamento, com Lily, teve um filho, Frank Mackey, criador de um sistema de auto-ajuda ultra-machista chamado “seduza e destrua”, que aos catorze anos viu a mãe morrer de câncer abandonada pelo pai, e que será entrevistado pela jornalista Gwenovier. Entre os programas produzidos por Earl está o “O que as crianças sabem?”, do qual foi estrela nos anos sessenta o hoje fracassado Donnie Smith, e é estrela atualmente o garoto-prodígio-explorado-pelo-pai Stanley Spector; o programa é apresentado por Jimmy Gator, casado com Rose e pai da cocainômana Claudia, que se iniciou no vício ao ser seduzida por Ray, adepto do método seduza e destrua, e o vício a levará a conhecer o policial Jim. Earl está com câncer terminal, e encarrega seu enfermeiro, Phil Parma, de entrar em contato com seu filho.
Óbvio que a personagens humanos tais simplificações são inadequadas. Nada é assim tão simples, e se Linda lesse esse esquema diria: “Você devia ter vergonha.”
Quebrando a angústia dos terríveis segredos, há dois personagens-símbolo: o enfermeiro e o policial, que curiosamente aqui se apresentam como materialização do ideal de suas profissões: servir e proteger. E aqui o serviço vai além do material, além da superfície. Enquanto a jornalista Gwenovier quebra o segredo de Frank para fins meramente profissionais, Phil e Jim não estão interessados em confrontar ou fazer ninguém confrontar-se. Serão apenas ligações, tentativas de redenção dos demais personagens. Entre esses dois, Jim ergue-se como um contraponto de ordem num mundo caótico. Dirá, como único personagem-narrador do filme (embora haja falas de outros que sirvam à narração), em seus monólogos que parecem mantras para afastar o caos exterior: “A lei é a lei, e de jeito nenhum posso quebrá-la. Mas você deve perdoar o próximo, e isso é o mais difícil: o que devemos perdoar? Andar pelas ruas é uma coisa perigosa.”
Jim é tão simples que seu drama, o fato de perder a arma em serviço, parecerá banal em um primeiro momento, contraposto aos dramas dos demais. Aqui se estabelece o contraponto: o desespero que se apossa de nossos corações vem dos nossos sofrimentos ou da maneira pela qual os encaramos?
A teia de coincidências vai se condensando, e já não é apenas nas ligações pessoais, mas na própria estrutura narrativa que passam a se estabelecer. Stanley, em resposta a uma das perguntas do programa, canta um trecho da ópera Carmem, de Bizet, e tal trecho passa imediatamente a trilha sonora do encontro de Jim com Claudia. Earl começa a divagar, em seu leito de morte, sobre o direito que todos temos ao arrependimento e sobre o fato da vida alongar-se por seus sofrimentos (um pensamento bem schopenhauriano) e tais divagações tornam-se reflexões sobre os mais angustiosos momentos dos personagens. Tempestade que se abate sobre todos.
Um dos mais desesperadoramente belos momentos da história do cinema é o falso clímax que se apresenta quando todos os personagens cantam a canção Wise Up, de Aimee Mann, cujo refrão poderia traduzir-se toscamente: “Você espera, mas isso não vai parar. Nunca vai parar, a não ser que você se toque.” Com o cessar da canção cessa a chuva. Arma-se o momento da descoberta. Os grilhões sociais e os segredos se partem.
Mas eles não conseguirão a redenção sozinhos. Na história do cinema encontraremos sublimes momentos de associação da chuva à paz de espírito, como Cantando na Chuva e V de Vingança. Entretanto, em Magnólia a chuva é perigosamente bela, inusitadamente poética. Vidas absurdas se redimem pelo absurdo. Enquanto os personagens param nos sinais da Rua Magnólia, dos céus cai a mais aterradora das chuvas: uma chuva de sapos. Eis o momento de epifania, no qual todos são confrontados consigo mesmos, no qual se encontrarão tal qual são. É aqui que se decide que isso tem que parar; que cada um se toca. As ligações são já mais poderosas que a mera coincidência. Alguns encontrarão a paz, outros serão impedidos de morrer, forçados a encarar a vida e o arrependimento. Pessoas deslocadas descobrem de repente o seu lugar no mundo. Já não se movem como joguetes na mão do destino. Sim, há para cada um um propósito, um lugar no tempo e no espaço. Pode não ser um lugar belo e seguro. Mas é seu lugar. E nisso consiste a redenção.
Sobre o improvável de tal chuva e tais encontros, dirá Stanley: “Mas acontece. Isso é algo que acontece.”
E a guinada está completa: não apenas as vidas dos personagens foram alteradas pela chuva de sapos. Também nós temos nossa epifania. Nossa perspectiva é alterada. Agora a organizada teia de coincidências talvez não passe de uma mera sequência de acasos.

Amâncio Siqueira

Juan López y John Ward

Pintura: Borges por Luis de Bairos Moura

Les tocó en suerte una época extraña.
El planeta había sido parcelado en distintos países, cada uno provisto de lealtades, de queridas memorias, de un pasado sin duda heroico, de derechos, de agravios, de una mitología peculiar, de próceres de bronce, de aniversarios, de demagogos y de símbolos. Esa división, cara a los cartógrafos, auspiciaba las guerras.
López había nacido en la ciudad junto al río inmóvil; Ward, en las afueras de la ciudad por la que caminó Father Brown. Había estudiado castellano para leer el Quijote.
El otro profesaba el amor de Conrad, que le había sido revelado en una aula de la calle Viamonte.
Hubieran sido amigos, pero se vieron una sola vez cara a cara, en unas islas demasiado famosas, y cada uno de los dos fue Caín, y cada uno, Abel.
Los enterraron juntos. La nieve y la corrupción los conocen.
El hecho que refiero pasó en un tiempo que no podemos entender.

Jorge Luis Borges

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Quixote - A ficção mais poderosa que a realidade

Pintura: Dom Quixote por Romanelli

Dom Quixote é o início do romance moderno. Uma antecipação de todos os movimentos literários subsequentes: Realismo, Simbolismo, Modernismo. É um livro que nasce como uma irônica e áspera crítica aos romances de cavalaria, moda na época, que termina por tornar-se o maior romance de cavalaria já escrito. Em outras ocasiões trataremos do romance de viagem, dos personagens dialogais Quixote e Sancho Pança, das inúmeras perspectivas e variações de temas. Quero abordar aqui a intertextualidade e a metalinguagem que permeiam a obra.
O romance dialoga não apenas com outras obras, mas principalmente consigo mesmo, e Cervantes se dispõe a ser personagem do próprio romance, e como tal não poderá fugir do tom irônico da voz narrativa: “Esse Cervantes foi um grande amigo meu por muitos anos, e sei que ele tem mais experiência em infortúnio do que em versos. Seu livro tem alguma faculdade inventiva, propõe algo, mas não conclui nada”, diz o cura ao encontrar na biblioteca de Dom Quixote o livro A Galatéia, do próprio Cervantes.
A carga metalinguística é incrível. O tempo inteiro Cervantes discute autoria, autonomia da obra, o que é ou não real na narrativa, o processo criativo. Aliás, não Cervantes, mas os personagens, também eles autores em grande parte da obra. No início da primeira parte o narrador afirma que depois de iniciada a narrativa não sabe ao certo qual será o destino do seu cavaleiro. Em seguida afirma que lhe chegaram uns velhos papéis escritos em árabe, os quais leva a tradutores que lhe dizem tais escritos pertencerem ao historiador árabe Cide Hamete Benegeli, e tratarem-se coincidentemente da história de Dom Quixote. Cervantes passa a simples editor, publicando a tradução do registro histórico de seu cavaleiro escrito por um mouro.
(Uma questão ética: é válido combater o mal através da ficção?)
No início da segunda parte alude a uma outra segunda parte, publicada anonimamente, cujo autor o haveria chamado “manco e velho”, por ter atrasado sua obra. Faz uma quixotesca (e aqui o termo não é pejorativo) defesa da batalha na qual se feriu, perdendo o movimento da mão esquerda, e da honra de travar tais guerras. Ainda no prefácio da segunda parte declara que mata e sepulta Dom Quixote para que ninguém mais possa usá-lo como personagem doutros livros. Logo Quixote, que se tornaria um dos mais participativos personagens da história, sempre vivo e aventureiro. A seguir os próprios protagonistas encontram o bacharel Sansão Carrasco, que já teria lido suas aventuras, ao qual Quixote inquire: “Com que então, é verdade haver uma história dos meus feitos, e ser mouro e sábio quem a compôs?”. Responde o bacharel: “É tão verdade que tenho para mim que no dia de hoje estão impressos mais de doze mil exemplares de tal história; senão digam Portugal, Barcelona e Valência, onde se estamparam, e ainda corre fama que se está imprimindo em Antuérpia, e a mim me transluz que não há de haver nação em que se não leia, nem língua em que se não traduza.” E daí passam a discutir o que está escrito na primeira parte que tem ou não fidedignidade com os fatos ocorridos.
Por último apresento o início do capítulo V da segunda parte: “Chegando o tradutor desta história ao quinto capítulo, diz que o tem por apócrifo, porque nele fala Sancho Pança com um estilo diverso do que se podia esperar do seu curto engenho e profere coisas tão sutis, que não julga possível que ele as soubesse; mas que não deixou de traduzi-lo, para cumprir o que devia ao seu ofício.”
E aqui ficamos numa encruzilhada de autores, num emaranhado de narrativas sobrepostas que se discutem, de um autor, um tradutor, um editor, um outro autor apócrifo e a realidade de personagens que discutem sua própria existência e a nossa.
Dom Quixote é uma obra inexaurível. Mais que geniais diálogos internos, o livro é um incessante diálogo com toda a literatura universal e com todos os leitores possíveis. Em que se destaque a ingenuidade de Quixote, há que se condenar a malícia dos que o enganam. Contra tais malícias, talvez a única arma justa seja a própria ingenuidade. Dom Quixote, iludido pela heróica inocência dos romances de cavalaria, transpõe-na para a realidade, na qual não encontra lugar. A crítica à ingenuidade eleva-a a um novo patamar de beleza e poesia.
(Uma resposta ética: quando a realidade é uma roda-viva de sofrimento e injustiça, a única ação justa é tomar a lança do irreal e com ela ferir o injusto. Dom Quixote crê no poder do símbolo e com essa firme crença se ergue como símbolo contra a infertilidade da terra e a brutalidade dos homens. Como os santos e os artistas, combate o mal por meio da ficção.)
No fim, um livro que ironiza os ideais de cavalaria exalta esses mesmos ideais, agora não contrapostos a gigantes, feiticeiras e dragões, mas a um mundo em que o mal se alimenta no coração dos homens. Cervantes encontrara o mais terrível símbolo do mal a se combater: a realidade em que vivemos.

Socó Pombo

A chuva me ensinou a chorar

Pintura: René Magritte, Golconde

Em dias de chuva a vida ganha nuances diferentes. Tudo fica mais poético e acolhedor, as paredes e as árvores vestem-se com matizes outras. Os livros ganham mais sabor, por causa do tempero do clima. Em dias de chuva minhas palavras mostram-se nuas e felizes, tristes e despudoradas, minhas palavras tornam-se ainda mais paradoxais, mais minhas. Torno-me mais íntimo de mim, converso com meus medos, ponho pra dormir as ausências, passo café a dois. Em dias de chuva sou mais companhia, me dou as mãos e saio num passeio íntimo. Em dias de chuva minha solidão sai para fluir, gosta de ser acarinhada pelas mãos do vento, de sentir as pálpebras da brisa. Delírio.Passei a chorar em público em um dia de chuva, ou melhor, em uma noite de chuva. Por acreditar que ninguém me perceberia chorar. Passei a chorar em público quando a noite também chovia, quando a noite escorria por sobre minha face e olhos, umedecendo meu olhar translúcido. Meu olhar nunca anoiteceu tanto. A chuva é uma tristeza chorando. A chuva me ensinou a chorar.Em dias de chuva serenam meus olhos sobre a nudez do tempo. Em dias de chuva meu olhar também chove, meu olhar me chove.Chove minha alma comovida.


Alessandro Palmeira

O acaso do livro


Nietzsche na juventude, em pose napoleônica


A humanidade raramente produz um bom livro em que o canto de guerra da verdade, o hino do heroísmo filosófico seja entoado com audaciosa liberdade: e, no entanto, depende dos acasos mais miseráveis, de obscurecimentos repentinos do espírito, de convulsões e antipatias supersticiosas, depende até mesmo, em última análise, da mão cansada de escrever ou mesmo dos insetos e da chuva, para que esse livro sobreviva um século a mais ou que apodreça e se reduza a pó.

Nietzsche

De um caos em palavras e palavras em caos


“Toda a alma contemporânea, violenta, revoltada, se desencadeia e deforma os corpos humanos; somos, com um pulo só, levados na vertigem. Amita sentiu-se arrepiando a essência da arte: a santa embriaguês, uma escapada heróica e desesperada, para fora do lugar e do tempo, para fora da lógica. As palavras desempenham um papel secundário: toda a embriaguês jorra do ritmo que embala os atores desenfreados.”

Nikos Kazantzakis


Palavras são pontes entre a psiquê humana e a realidade. Através delas o ser humano constrói sua alma, abstraindo de suas percepções o construto que poderá denominar universo. O vocabulário do homem traz as menores partículas e as maiores galáxias que compõem seu universo interior.
As palavras moldam um mundo disforme e hostil.
Uma palavra sem sentido para o homem comum é uma ponte que liga dois pontos ignorados. Inútil até que se saiba aonde leva. Para o poeta, todavia, toda ponte é útil, sendo ela própria um construto de beleza indevassada, de novos matizes descobertos a cada novo vislumbre. Cada ponte tem um destino de prazer e mistério. Para o poeta é suficiente que a ponte leve a si mesma.
Para o vate não será suficiente encontrar os significados subjacentes da palavra cantada. Buscará a sua mais primitiva significação, aquilo que vai além da abstração, da ordem. A primitiva palavra que como Verbo criou o mundo do homem. A palavra como a coisa em si, como um ser concreto, que para além do homem confunde-se com a própria coisa e ainda assim é unidade autônoma, um elemento místico.
As palavras postas em ritmo avassalador já não são blocos que constroem o entendimento humano, mas blocos de Verbo a compor a própria realidade vivenciada. Pontes do homem para si mesmo, para o subjacente espírito cravado em sua mente racional.
Na grande literatura, na poesia, não é apenas no significado das palavras que reside seu segredo. Palavras são levadas até seu estado primitivo. O ritmo ganha maior importância. Cada palavra, com seu ritmo e sonoridade únicos, torna-se uma nota musical. O feitor do texto busca, assim, um cantar selvagem e belo, como o canto dos pássaros ou o uivo dos caninos.
A maldição do poeta: sentir em sua alma todo o horror do urro selvagem do universo e mantê-lo preso, ecoando dentro de si, pois não há voz ou palavras que possam traduzi-lo.

Amâncio Siqueira - Trecho do romance Eu, no Hospício

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Presenteie com um livro - uma campanha do Phallos


Quando quiser presentear alguém, presenteie com um livro. Ajude a difundir o conhecimento.

Luto

Foto do antropólogo em suas expedições pelo Brasil
"Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele"
Claude Lévi-Strauss
O antropólogo, filósofo, crítico e acadêmico Claude Lévi-Strauss morreu, aos 100 anos, na madrugada do último domingo (1/11). O anúncio foi feito apenas nesta terça-feira (3/11) pela Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris (França).
O pensador iniciou faculdade de direito na Sorbonne, porém não concluiu o curso, voltando-se para Filosofia.
Conhecido como o fundador da antropologia estruturalista (foi o primeiro estudioso a aplicar princípios científicos rígidos das ciências exatas como fisico-química e biologia nos estudos antropológicos e sociológicos, influenciando outras áreas, como a Linguística e a Psicologia), Lévi-Strauss participou, na década de 1930, da missão francesa que organizou alguns dos cursos da Universidade de São Paulo (USP) pouco após sua fundação, em 1934.
Por esta época viajou pelo centro-oeste do Brasil, nas matas do cerrado e do pantanal, estudando as línguas e costumes dos povos indígenas, em especial entre os índios Bororo e Nhambiquara, em companhia de sua esposa. Tais estudos deram origem à sua vocação antropológica e ao livro Tristes Trópicos, sua mais famosa obra. São destacáveis seus interesses na influência dos mitos e das relações familiares como motores na formação das sociedades, além do estudo dos mecanismos da cognoscência humana.
Em 1973, foi eleito para a Academia Francesa.
Caetano Veloso cantou a relação do antropólogo belga radicado na França com o Brasil na música O Estrangeiro:
“O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara
Pareceu-lhe uma boca banguela” (não encontramos ainda vídeos desta música).
Mário de Andrade recebeu importante colaboração de Lévi-Strauss na sua pesquisa das produções populares brasileiras.
Os gênios não morrem: permanecem perenes em sua obra.
Um século de vida é coisa rara. Um século de produtividade, inteligência e lucidez é para gigantes.

Socó Pombo

Análise do resultado da primeira enquete

Leitor do Phallos depois de responder à enquete

Há um mês abrimos a seguinte enquete:
O Phallos quer conhecer o seu nível de descaso com a literatura. Quantos livros você lê por mês?
Menos de um
Um
Dois
Três ou mais
Não foi um sucesso de público, sendo todavia de crítica, a julgar pelo resultado:
Foram oito votantes, dos quais 3 (37%) votaram na opção um, 1 (12%) na opção dois e nas opções três e quatro votaram igualmente 2 (25%). O cálculo não será exato, pois não poderemos aferir quantos livros lêm os que votaram nas opções um e três, mas podemos estimar uma média, que seria de aproximadamente dezoito livros por ano. Os leitores do Phallos (ao menos os que votaram na enquete) estão com uma média muito acima da média nacional, de aproximadamente três livros por ano, e similar à dos países nórdicos (os que têm o melhor IDH e a melhor educação do mundo), de quinze.
Parabéns, leitores phállicos. E já temos uma nova enquete. Contribua opinando no fim da página qual o melhor título para a seção feminina do nosso blogue.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

De um oceano de cultura com ilhas e continentes


Ilustração de Kevin O’neill. A Liga Extraordinária é um conjunto de personagens clássicos dos romances do século XIX, reunidos por Alan Moore


“Inúmeras vezes ouvimos os homens falar como se o estudo dos clássicos fosse finalmente dar lugar a estudos mais modernos e práticos. Todavia, o estudante ousado sempre estudará os clássicos, seja qual for a língua em que estejam escritos e por mais antigos que possam ser. O que são os clássicos, enfim, senão o registro dos mais nobres pensamentos do homem? Os únicos oráculos que não decaíram são essas obras.”

Henry David Thoreau


Os colaboradores phállicos não se arrogam o título de eruditos. Somos apenas mochileiros, perambulando prazenteiramente por um universo vasto em cultura. E é para mochileiros como nós que indicamos a leitura dos clássicos. Até porque a produção dos últimos trinta dias não se pode comparar com a dos últimos trinta séculos.
Primeiramente deixo claro que clássico não é sinônimo de velho. E o digo não apenas porque há clássicos contemporâneos surgindo diuturnamente, mas principalmente porque a obra que pode ser chamada clássica é aquela que jamais envelhecerá. Traz em si uma eterna juventude, pois o que traz de primevo, de selvagem e sublime, imprime-lhe uma potência jovial que resiste até mesmo ao próprio fim.
Há poucos dias comprei um cd de Rossini, pensando que nunca ouvira sua música. De repente, todas as músicas que ouço são minhas velhas conhecidas. Sim, o clássico continua existindo para além de si mesmo. Para além de seu autor, para além de seu meio original, de sua cultura. Poucos sabem quem é Jonathan Swift, muitos sabem quem é Gulliver e praticamente todos já leram, ouviram, viram ou polimidiatizaram paráfrases da história do viajante que encontrou seres diminutos e seres gigantescos em suas viagens. Ao longo dos séculos Ulisses sobrepujou Homero, Dom Quixote se tornou mais real que Cervantes.
Tais obras ultrapassam a ideia de posse. Não pertencem a uma classe, a uma faixa etária, a uma etnia, a uma religião ou a uma nação. Por tocar aquilo que jaz mais encoberto, por denunciar o que há de mais evidente na universalidade do gênero humano, os clássicos são universais. Por pertencer a todos, o clássico não pertence a ninguém.
Obras clássicas são aquelas que sobrevivem às desavenças entre povos e nações, às agruras do fogo e da guerra, aos desmandos dos poderes, às disparidades entre as línguas. À indiferença do tempo. Ultrapassam o preconceito e a intolerância. O clássico é como uma semente guardada no tronco de uma árvore arrostada ao mar. Espera apenas chegar à terra fértil para medrar.
É evidente que em seus meios originais tais obras carregam uma maior profundidade, uma maior carga de expressão. Tais icebergs, contudo, mantêm suas pontas emersas na superfície do oceano da cultura universal. Muitos formam verdadeiras ilhas ou mesmo continentes, nos quais o mochileiro da cultura deverá necessariamente desembarcar, ou terá singrado os sete mares sem jamais ter conhecido as maravilhas dos portos ou a beleza selvagem das ilhas.

Amâncio Siqueira

Resultados do mercado editorial até o ano de 2007 preocupam: brasileiro lê 0,9 livro não didático por ano

Os dados são alarmantes: o Brasil consome uma média per capita de 2,4 livros por ano, e o maior consumidor é o governo, na compra de livros didáticos para as escolas. O mercado editorial simplesmente retornou em número de obras publicadas ao patamar de 2000. Ou seja, o povo está pouco interessado no livro, o que reflete negativamente em todos os âmbitos da vida social.
O Phallos, ciente da dificuldade de auto-conscientização da população, lança a campanha Presenteie com um Livro. Sabemos que as pessoas não têm a disposição de tirar 10% dos seus gastos com bebida (e outras drogas), festas e música ruim para investir em cultura, então contribuamos para a difusão do saber. Quando for presentear alguém, presenteie com um livro. É um dinheiro que você gastaria de qualquer forma, então que seja bem investido.

Nikos Kazantzakis - Parte IV

Pintura: Ressurreição, por El Greco

A introdução à bio-bibliografia de Nikos Kazantzakis estava pretensamente finalizada. Contudo, acredito ser importante elucidar os motivos do grande gênio grego não ter recebido o prêmio Nobel de literatura. Aproveito o ensejo para adicionar os relatos de sua esposa, Hélène Samiou, que doravante chamaremos apenas Helena, a respeito de seus últimos momentos.
Em 1956, sabendo ter leucemia e com problemas de visão, Kazantzakis inicia a redação das suas memórias, o magistral Testamento para el Greco, no qual se confessa ao grande pintor do século 16, conterrâneo de Kazantizakis, na Toledo que adotou, na qual faleceu em 1614. Nesta impressionante obra, o autor apresenta um aspecto importante de sua obra: o inextricável caráter auto-biográfico. Muitas das características dos seus mais marcantes personagens foram suas próprias características. Anseios, dúvidas, dores lançadas como sangue sobre o papel. Testamento para El Greco é um livro de carne. A capa do livro é feita da pele de Kazantzakis.
É comum que as indicações ao prêmio Nobel sejam feitas pelas academias de letras nacionais. Entretanto, com Kazantzakis não ocorreu assim: Indicado ao prêmio Nobel por Thomas Mann e Albert Schweitzer, Kazantzakis perdeu o prêmio por um voto, para Albert Camus (autor de A Peste e O Estrangeiro, entre outras obras), de 44 anos de idade, trinta anos mais novo do que ele, após pesado lobby da diplomacia grega contra a outorga do prêmio. A exemplo do que ocorreu com Saramago em Portugal, seu país ouvia as vozes do ódio e da igorância vindas dos religiosos, e se opunha à premiação da genialidade por considerá-la perigosamente herética. O próprio Camus, que no seu O Mito de Sísifo expôs algumas ideias próximas às de Kazantzakis descritas na Ascese, afirmaria em carta a Helena ser Nikos, que faleceria poucas semanas após a entrega do prêmio, cem vezes mais merecedor da honraria do que ele (a obra de Camus é uma das mais impressionantes do século XX. Não posso, porém, deixar de concordar com ele). De fato, rótulos de herético ou de comunista (também aqui podemos fazer um paralelo com o Nobel português) acompanharam os últimos anos de suas relações com o país natal e a igreja ortodoxa, sem esquecer da Católica, que o condenou veementemente.
Sobre o período de agravamento de sua doença escreveu a fiel Helena, na biografia intitulada O Dissidente:
Nikos Kazantzakis pediu a Deus dez anos adicionais de vida, dez anos a mais para completar sua obra - para dizer o que tinha de dizer e ‘esvaziar-se'. Queria que, quando a morte viesse, encontrasse somente um monte de ossos. Dez anos seriam suficientes, ou assim ele imaginava. Mas Kazantzakis não era do tipo que podia ‘esvaziar-se' assim facilmente. Longe de se sentir velho e cansado aos setenta e quatro anos, considerava-se rejuvenescido mesmo após a sua última trágica aventura, a da vacinação.
E assim narra seus últimos dias:
De olhos negros como breu, redondos na penumbra, as lágrimas brotando, costumava me dizer: - tenho vontade de fazer o que diz Bergson: ir até a esquina e, estendendo as mãos, começar a implorar aos passantes: ‘Esmolas, irmãos! Quinze minutos de cada uma de suas vidas. Oh, por pouco tempo, o bastante para terminar meu trabalho. Depois, que venha Caronte.'
E Caronte veio - maldito seja! - ceifando Nikos na primeira flor de sua juventude! Sim, caro leitor, não ria. Porque este era o instante para que tudo florescesse e frutificasse. Tudo o que iniciou, este homem que você tanto amou e que tanto o amou, seu Nikos Kazantzakis.
Sobre sua missão, suas batalhas e suas armas, numa guerra da qual, embora derrotado, foi o grande vencedor, disse:

"Ah!... As palavras! As palavras! Para mim, pobre de mim, não existe outra salvação. Não tenho em meu poder mais do que vinte e seis soldadinhos de chumbo, as vinte e seis letras do alfabeto: eu decretarei a mobilização, eu levantarei um exército, eu lutarei contra a morte".

Socó Pombo

Outros povos têm santos, os gregos têm sábios

Pintura: Rafael, detalhe do quadro Escola de Atenas


Todos os povos se cobrem de vergonha quando se aponta para a sociedade de filósofos tão maravilhosamente exemplar: a dos primeiros mestres gregos. Tales, Anaximandro, Heráclito, Parmênides, Anaxágoras, Empédocles, Demócrito e Sócrates. Todos esses homens são talhados inteiramente numa só peça de uma única pedra. Seu pensamento e seu caráter estão ligados por uma necessidade estrita. Ignoram todas as convenções, porque a classe dos filósofos e dos sábios não existia naquela época. Todos eles são, em sua grandiosa solidão, os únicos homens que naqueles tempos viviam votados ao conhecimento. Todos possuem essa vigorosa energia dos antigos, pela qual superam toda a sua posteridade e que lhes permite encontrar sua forma própria e dar a esta seu desenvolvimento pleno, em seus ínfimos detalhes e em sua maior amplitude, graças à metamorfose. De fato, moda alguma veio lhes prestar mão forte e lhes facilitar as coisas. Desse modo, todos formam, em conjunto, aquilo que Schopenhauer chamou, em oposição à república dos sábios, uma república dos gênios. Os gigantes se interpelam através dos intervalos desérticos da história e, sem se deixarem perturbar pelos anões descuidados e barulhentos que continuam a rastejar abaixo deles, prosseguem seu sublime diálogo entre espíritos.
(...)
Outros povos têm santos, os gregos têm sábios. Com justa razão se disse que um povo é caracterizado menos por seus grandes homens do que pela forma pela qual são reconhecidos e honrados.

Nietzsche, A filosofia na época trágica dos gregos

Sobre a Filosofia e outros diálogos

"Hoje de manhã me perguntaram se eu escrevia para a maioria ou para minoria, e eu respondi, como respondi tantas vezes, que se fosse Robinson Crusoé, em minha ilha deserta, eu continuaria escrevendo. Ou seja, eu não escrevo para ninguém, eu escrevo porque sinto uma íntima necessidade de fazê-lo. Isso não significa que eu aprove o que escrevo, posso não gostar, mas eu tenho que escrever aquilo naquele momento. Caso contrário, me sinto... injustificado e infeliz, sim, desventurado. Por outro lado, se escrevo, o que eu escrever pode não ter valor, mas enquanto escrevo me sinto justificado; penso: estou cumprindo com meu destino de escritor, sem considerar o que minha escrita possa valer.”
Borges, trecho do livro Sobre a filosofia e outros diálogos

Um toque de auto-ajuda, que ninguém é de ferro

Ilustração: Dante e Virgílio (poderiam bem ser Schopenhauer e Nietzsche observando o nosso mundo) observam os habitantes Inferno, por Gustave Doré

Acrescente-se a isso que em geral achamos as alegrias abaixo de nossa expectativa, ao passo que as dores a excedem grandemente.
A felicidade, portanto, está sempre no futuro ou no passado, e o presente é como uma pequena nuvem sombria que o vento impele sobre a planície cheia de sol; diante dela, atrás dela, tudo é luminoso; só ela projeta sempre uma sombra.
E assim como do ponto de vista físico o andar não é mais do que uma queda sempre evitada, da mesma maneira a vida do corpo é a morte sempre suspensa, uma morte adiada, a atividade do nosso espírito um tédio sempre combatido. (...) É preciso, enfim, que a morte triunfe, pois lhe pertencemos pelo próprio fato de nosso nascimento e ela não faz senão brincar com a presa antes de a devorar.
Schopenhauer

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Indicações de leitura do Phallos - Parte III

Anexo da Biblioteca do Senado, Paris - França
Em 1966 a “Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé” cessou as publicações do Index, contudo anunciou que o mesmo continuaria servindo como um “guia moral para lembrar aos fiéis que eles devem ter cuidado com escritos que podem ser perigosos para a fé e a moral.” Atualmente a igreja, para declarar que um livro é perigoso para a fé, lança um admonitum (advertência). Segundo eles, apenas um guia moral, já sem o poder de lei eclesiástica que outrora teve o Index. Devemos lembrar que a origem do termo Lista Negra parte do Index Librorum Prohibitorum.
Todavia, há setores dentro da igreja que possuem uma lei de censura ainda mais rígida.
A Opus Dei controla toda a informação a que seus membros têm acesso. Os membros necessitam permissão dos seus diretores para ler um livro, mesmo que este seja necessário para formações escolares. Os diretores averiguam se o livro será adequado ou não mediante uma lista que poucos têm acesso. Esta lista é baseada na usada pela Igreja Católica até 1948. A Opus Dei continuou a utilizá-la e a atualizá-la periodicamente.Esta Base de Dados é chamada de Guia Bibliográfico. Infere-se que estão indexados mais de 60 mil livros, classificados do nível um ao seis, sendo o um leitura para toda a família e o seis proibido mesmo para o mais fervoroso fiel. Existem 6892 livros com a classificação de seis, entre os quais livros dos seguintes autores (não recomendados anteriormente): Woody Allen, Isabel Allende, Karen Armstrong, Margaret Atwood, Judy Blume, Roberto Bolano, Joseph Campbell, Allen Ginsberg, Mary Gordon, Gunter Grass, Andrew Greeley, Herman Hesse, Adolph Hitler, John Irving, James Joyce, Carl Jung, Eugene Kennedy, Jack Kerouac, Stephen King, Milan Kundera, Hans Kung, Harold Kushner, Henri Lefebvre, Doris Lessing, Sinclair Lewis, Richard P. MacBrien, Mary MacCarthy, Malinowski, Somerset Maugham, Toni Morrison, Alice Munroe, Vladimir Nabokov, V.S. Naipaul, Pablo Neruda, Octavio Paz, Harold Pinter, Marcel Proust, Philip Roth, Bertrand Russell, John Updike, Gore Vidal, Alice Walker, Gary Wills, Patrick Süskind, J. D. Salinger, Alessandro Palmeira, José Saramago, Márcio Jardson, Nikos Kazantzakis, Amâncio Siqueira e Tennessee Williams.
Leitura de qualidade para toda uma vida.
Post Scriptum: Alguns leitores podem queixar-se pelo fato de darmos preferência para as indicações da igreja católica em relação às demais. Tomei por referência o índex católico por desconhecer indexes de outras religiões, que costumam ser mais práticas: proíbem todos os livros, com exceção dos trechos que selecionam da Bíblia e livros vendidos na própria igreja.

Socó Pombo

De corrupções e jeitinhos


Ilustração: charge do Duke

“Essa mentalidade ardilosa é uma faca de dois gumes. Na literatura, sua encarnação é Ulisses, que para Homero era um herói sagaz – salvador dos gregos, flagelo de tróia, vencedor de Polifemo e das sereias – e para Dante um mentiroso e embusteiro condenado ao nono círculo do Inferno.”

Alberto Manguel

Há alguns anos uma pesquisa perquiria a população brasileira sobre a prática de atos desonestos ou ilegais. Quarenta e sete por cento dos entrevistados responderam positivamente se já haviam praticado tais atos. Socó Pombo interpretou os restantes dados da seguinte forma: 50% são tão desonestos que não conseguem ser honestos nem no momento de responder a uma pesquisa e os 3% restantes incluem alguns brasileiros honestos e estrangeiros que ainda não aprenderam o ‘jeitinho’. Não serei tão alarmista quanto meu amigo (e espero que ninguém me acuse de estar sendo desonesto). Encaremos, contudo, a realidade: quase metade da população brasileira assume sem qualquer pudor sua tendência à desonestidade. E não podemos esquecer aqueles que, de tão desonestos, acreditam ser honestas suas condutas.
A verdade é que o brasileiro tem muito orgulho do ‘jeitinho’. Seus olhos brilham quando revela um “esquema” de que participou. É incrível o orgulho que algumas pessoas revelam quando contam histórias de como furaram uma fila, saíram sem pagar a conta, fraudaram o INSS, entraram numa festa sem pagar, enganaram o imposto de renda, negociaram produtos piratas e muito mais.
O mestre da ironia Machado de Assis relata nas Memórias póstumas de Brás Cubas que o protagonista encontra uma moeda de ouro (meia dobra) e, tomado pela consciência, remete-a ao chefe de polícia para que seja restituída ao proprietário, recebendo muitas congratulações públicas. Em seguida encontra um pacote contendo cinco contos de réis, e desta vez a consciência nada lhe diz. Ao dirigir-se ao Banco do Brasil para depositar seus achados cinco contos, é congratulado pelo caso da meia dobra. Não quero aqui deter-me na comparação dos valores e dos feitos, ou na moralidade do personagem, mas nas públicas congratulações. Em mais de um século tal perspectiva não mudou: sempre que alguém devolve bens encontrados, recebe reportagem da mídia e tal feito circula na boca do povo. Tão endêmica é a corrupção do nosso povo que simples atos honestos causam surpresa.
Como um caracol, demos uma volta sobre nós mesmos e nosso cotidiano e cheguemos ao círculo superior, o da política. A despeito do orgulho que nosso povo tem do ‘jeitinho brasileiro’, muitos reclamam da corrupção nas mais altas esferas de poder. Alguns até apóiam nossa classe política, dizendo num sorriso: “Eles estão certos. Se fosse eu lá, roubava mais do que eles”. A grande maioria, contudo, continua a recriminá-la.
Analiso o fenômeno apenas cientificamente: vivemos numa democracia representativa, ou seja, os eleitores escolhem seus representantes. Assim como cabe aos idiotas escolher idiotas que os representem, um país cuja metade da população é composta por pessoas corruptas (e aquele que busca distinguir os mais corruptos dos menos encontra apenas argumentos mais justificadores para que a corrupção se alastre) deverá ter necessariamente metade dos seus governantes também corruptos. Se alguém vende seu voto por algum mensalinho, que moral tem para cobrar de seu representante que não se venda por um mensalão?
Lembro ao povo que se orgulha do ‘jeitinho brasileiro’ as palavras de Max Weber: “O predomínio universal da absoluta falta de escrúpulos na ocupação de interesses egoístas na obtenção do dinheiro tem sido uma característica daqueles países cujo desenvolvimento burguês-capitalista, medido pelos padrões ocidentais, permaneceu atrasado.” O Brasil continuará a ser o país do futuro enquanto perdurar sua prática do passado.
Da próxima vez que for cometer um pequeno e inocente ato desonesto, reflita que também você tem sido causa do atraso a que nosso país tem sido condenado.
Não apenas as pessoas honestas são vítimas do ‘jeitinho brasileiro’.
Amâncio Siqueira

Um elogio aos beatos


Ilustração: Cena do Paraíso Perdido por Gustave Doré

“Quão tediosa reputo a eternidade
Gasta em dar culto ao ser que se aborrece!
De mão sim demos pois, não prossigamos,
Inacessa à violência, essa alta pompa
(Essa alta pompa – escravidão contudo
Que nem nos céus a quer uma alma nobre),
Antes o nosso bem de nós tiremos,
Do que for nosso para nós vivamos,
Mesmo nesta prisão sejamos livres
Recusando qualquer alheio mando,
E ao fácil jugo de servil grandeza
Prefiramos custosa liberdade."


John Milton, Paraíso Perdido

Dança!

Pôster do filme Zorba, o grego, baseado em obra homônima de Kazantzakis

“Há em mim um diabo que grita, e eu faço o que ele diz. Cada vez que eu estou a ponto de sufocar, ele diz: ‘Dança’, e eu danço.E isso me alivia! Uma vez, quando meu pequeno Dimitráki morreu, na Halkidikí, eu me levantei e dancei.Os parentes e amigos, ao me virem dançar assim diante do corpo,se precipitaram sobre mim para me fazer parar.‘Zorba ficou louco!’, eles gritavam. ‘Zorba ficou louco!’ Mas eu, se não dançasse naquele momento, aí sim, eu ficaria louco de dor. Porque ele era o meu primeiro filho e tinha três anos, e eu não podia suportar a sua perda. Você compreende o que estou dizendo, ou estou falando para as paredes?”
Nikos Kazantzakis, Zorba, o grego

Mesmo perto é preciso olhar longínquo

Pintura: Salvador Dalí - Moça na janela

Mesmo perto é preciso olhar longínquo para o amor, como se contempla um pôr-do-sol, uma fotografia de quando criança, uma fotografia de uma partida. É preciso olhar longínquo, mesmo para si; há mais palavras no poema que imaginamos ser, há mais ternura, mais loucura, mais arcano. É preciso olhar longínquo para nudez da mulher amada, há algo muito além do corpo, há algo muito além da febre, a nudez da mulher possui algo tão sagrado que a própria poesia ajoelha-se em oração para rezá-la.
O desejo é um origami da alma feito pelas mãos do louco que carregamos dentro, disse-me certa vez um hospício. É esse louco que melhor olha, que melhor sente, vive. É esse louco que nos faz transbordar sede, encorpar embriaguez, tocar o longínquo do amor. É esse louco de dentro que delineia a razão do amor. Mesmo perto é preciso olhar longínquo para as coisas tristes porque belas as olhando assim, porque passadas as olhando assim. Tudo é contentamento para olhos sedentos de paisagens. Tudo é tão dentro no amor, tão entranhado, arrebatado, que precisa-se fechar os olhos para enxergar. Precisa-se abreviar a razão, alargar o delírio.
Olhei a loucura nos olhos e senti mais existência. Nunca me senti tanto. Estavam belos seus olhos, talvez porque tristes ou tristes porque talvez. Estavam. Contemplei com vagar a sua graça e a quis minha. Mesmo perto é preciso olhar longínquo, para Deus, para a dor, para o amor, para o poema nunca escrito. É imprescindível olhar longínquo para quase tudo, menos para a loucura, para a loucura é preciso olhar perto, sentindo o cheiro, sentindo o hálito, a febre; sentindo-se ela. É preciso olhar...

Alessandro Palmeira

Trilogia de diálogos borgeanos

Capa do livro Sobre os sonhos e outros diálogos, de Borges e Osvaldo Ferrari
Jorge Luis Borges, um dos mais profícuos colaboradores deste blogue (continua produzindo mesmo depois de morto), tem publicados pela Editora Hedra em três volumes (Sobre os Sonhos e outros diálogos, Sobre a Filosofia e outros diálogos e Sobre a Amizade e outros diálogos), as conversas que teve com Osvaldo Ferrari, poeta, ensaísta e jornalista argentino, realizadas na biblioteca de Borges, transmitidas pelo Rádio Municipal de Buenos Aires e publicadas no jornal Tiempo Argentino depois das emissões.
Ao longo dos próximos dias aproveitaremos para publicar trechos dos diálogos.

"Se o fato de sonhar fosse uma espécie de criação dramática, então aconteceria que o sonho é o mais antigo dos gêneros literários, inclusive anterior à humanidade, porque, como lembra um poeta latino, os animais também sonham. E viria a ser um fato de índole dramática, como uma peça na qual somos o autor, e também o edifício, o teatro. Ou seja, à noite, todos somos, de alguma maneira, dramaturgos.”
Trecho de
Sobre os Sonhos e Outros Diálogos – Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari