sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Consciências personalísticas

Pintura: Sísifo, por Tiziano

Li recentemente um comentário no Digestivo Cultural de um leitor que disse não gostar de Saramago. Sua razão para tal: ”Os personagens não têm vida e a história está lá para dar voz às pontificações do autor.”

Pensei em responder-lhe apenas com um “Bemvindo à literatura”, mas ao ler O Homem Duplicado encontrei este texto interessantíssimo, no qual o próprio Saramago ironiza sua queda pelas pontificações:

“Um parêntesis indispensável. Há alturas da narração, e esta, como já se vai ver, foi justamente uma delas, em que qualquer manifestação paralela de ideias e de sentimentos por parte do narrador à margem do que estivessem a sentir ou a pensar nesse momento as personagens deveria ser expressamente proibida pelas leis do bem escrever. A infracção, por imprudência ou ausência de respeito humano, a tais cláusulas limitativas, que, a existirem, seriam provavelmente de acatamento não obrigatório, pode levar a que a personagem, em lugar de seguir uma linha autónoma de pensamentos e emoções coerente com o estatuto que lhe foi conferido, como é seu direito inalienável, se veja assaltada de modo arbitrário por expressões mentais ou psíquicas que, vindas de quem vêm, é certo que nunca lhe seriam de todo alheias, mas que num instante dado podem revelar-se no mínimo inoportunas, e em algum caso desastrosas.”

Na literatura imortal não têm os autores servido como amigos imaginários ou vozes de consciência para seus personagens? As narrativas são meios para o desabafo de almas atormentadas. Longe de tirar a vida dos personagens, é a voz do autor que preenche de sangue suas veias.

Embora no mais das vezes os personagens discutam e discordem do autor, em alguns momentos até sabem ouvir seus conselhos, que nem sempre vêm para o seu bem.

Pontificações como a baleia branca de Melville ou os moinhos de vento de Cervantes jamais serão apagadas, pois simbolizam a pedra no caminho de Drummond, o trabalho de Sísifo que é arrumar a casa. A eterna busca a que nós nos entregamos vida afora, quando nos propomos uma missão, um sentido para o existir. Eterna não porque fora do tempo, e sim porque circular. Vivenciamos todos em nossa vida fugaz o eterno retorno nietzschiano. Os grandes personagens literários mostram isso. Quanto maior sua tarefa, mais certo o fracasso que leva ao recomeço.

Isso é vida.

Socó Pombo

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Mulher Perdigueira e os ciúmes de Carpinejar



Há pouco estivemos numa conversa com Carpinejar, sobre o seu livro de crônicas Mulher Perdigueira, que vai já na segunda edição. O bate-papo aconteceu na livraria FNAC de Porto Alegre. O escritor gaúcho tem uma estratégia eficiente para disfarçar a timidez: trajando calça apertada vermelha, blusa multicolorida, óculos gigantescamente vermelhos e uma mochila preta, combinando com as unhas da mão esquerda, avisa a todo mundo que está na área.
Na crônica que dá título ao livro o autor faz uma defesa dos ciúmes e da possessividade. Em todos os textos há um tom confessional, não para remissão de pecados, e sim de memórias ou desabafos de mesa de botequim. Não falta o riso, mesmo a gargalhada da embriaguez. O mesmo tom foi dado ao bate-papo, como o ouvinte poderá acompanhar no vídeo (peço que preste atenção apenas ao áudio, já que as poucas fotos são em má qualidade, o que ajuda a esconder a feiura dos personagens). Nada do rebuscamentos ou hierarquias de distanciamento. Em determinados momentos parecia até mesmo uma terapia em grupo sem psicologismos, tão íntimos ficaram todos. Um grupo de literaturólatras anônimos, com exceção de Fabrício.
Destaque para minha sobrinha, Mariana, que aos dezesseis meses já participou ativamente do debate, fazendo salutares questionamentos e arrancando a admirada atenção dos participantes, inclusive do próprio autor.
Entretanto, não se engane com a simplicidade das palavras de Carpinejar: há sempre uma poesia perdida nas entrelinhas, escorrendo pelas páginas, gotejando sobre o leitor.

Amâncio Siqueira

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Tolerância religiosa


Tradução: Talvez AGORA você aprenda a TOLERAR e RESPEITAR o ponto de vista dos outros.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

De tiranias do povo, pelo povo e para o povo


“O sufrágio universal é a mais monstruosa e mais iníqua das tiranias, pois a força do número é a mais brutal das forças, não tendo a seu lado nem a audácia, nem o talento.”

Bourget

A democracia surgiu em moldes bem diversos dos das atuais. Quando tal forma de governo foi adotada na Grécia, os cidadãos tomavam parte ativa no governo da Polis. Reunidos em assembleia, votavam diretamente sobre os temas do debate, sem a escolha de intermediários para tomar suas decisões, como ocorre atualmente, com a escolha de “representantes” (embora houvesse cargos eletivos para execução de questões mais práticas). Obviamente, com apenas algumas centenas de cidadãos era mais fácil reuni-los. E para ser cidadão não havia a mesma facilidade que atualmente: mulheres, homens jovens ou pobres e escravos não podiam tirar o título eleitoral. Continuava, portanto, o governo de poucos sobre muitos, embora os poucos passassem a se chamar “maioria”.
Os cargos eletivos foram criando mais e mais importância e acumulando maior poder, até que os cidadãos passaram a participar de um sistema que daria origem ao parlamentarismo: cidadãos escolheriam um conselho de anciãos (senado) que por sua vez escolheriam um governante em situações especiais. A última dessas situações especiais deu origem à tirania de Júlio César, já no incipiente Império Romano, que poria fim à democracia até então praticada.
Nos séculos seguintes, poucos povos tiveram o mesmo ímpeto por auto-governar-se que os gregos. Discordo de Aristóteles, quando diz que “a democracia surgiu quando, devido ao fato de que todos são iguais em certo sentido, acreditou-se que todos fossem absolutamente iguais entre si”. Vejo no surgimento da democracia grega mais o desejo de não ser superado por outrem do que o de igualdade. O afã de governar, não o de repartir o poder. Não por acaso o próprio Aristóteles diz que “democracia é a mais severa forma de despotismo”. Quando os cidadãos querem, pela força do número, governar seus iguais, determinando seu comportamento em todos os âmbitos da vida, um despotismo da “maioria” está instaurado. Tal despotismo não vê igualdade absoluta entre as pessoas: obriga os desiguais a igualar-se à maioria.
Os movimentos que fizeram ressurgir a democracia a partir do iluminismo não tinham sentimento muito diferente do antigo. Cidadão passou a ser sinônimo de burguês de grandes posses, embora muitos ativistas da Revolução Francesa discordassem disso. O sistema presidencialista, erigido nos Estados Unidos, foi exportado para vários lugares do mundo, inclusive o Brasil. Seria um sistema ideal para qualquer país que quisesse ter um rei eleito pelo povo.
Todas as formas de poder democrático até a atualidade mantiveram o sistema de eleição de representantes do povo, que não toma decisões diretamente. No Brasil, o processo de escolha dos representantes se dá a cada dois anos, com ciclos de escolha de legisladores e governantes municipais intercalados pelos dos estados e da União. O poder judiciário não é eletivo. Na luta pelo poder, via de regra há que se gastar muito dinheiro para obtê-lo. Quantias vultosas são despendidas nas campanhas eleitorais.
Primeiramente, quero frisar bem o termo campanha eleitoral. Erroneamente, as pessoas em sua maioria se referem às eleições como “tempo de política”, e considero importante partir daí para lembrar que é sempre tempo de política, de lutar pela melhoria da polis, da cidade (ou Estado e União, exemplos mais amplos de Polis). Portanto, cabe sempre destacar que campanha eleitoral não é sinônimo de campanha política. Campanha eleitoral é também uma campanha política, o ápice da luta pelo poder na democracia representativa que vivenciamos atualmente. Entretanto, há campanhas políticas que fogem do eleitoral, que mobilizam parcelas populacionais desinteressadas do poder, mas engajadas na luta pelo estado de direito. A campanha pela lei da Ficha Limpa foi um exemplo pontual. Exemplos constantes de campanhas políticas são os movimentos pela reforma agrária, pelos direitos dos homossexuais ou pela descriminalização do aborto. Em geral, os temas debatidos em campanhas políticas extensas e apartidárias não entram no debate das campanhas eleitorais, devido ao fato de serem temas polêmicos, desaprovados pelo público mais amplo, o que faz os candidatos preferirem ignorá-los.
Para obter o poder, o candidato se faz candidato da maioria, pois é a maioria que tem o poder de outorga do governo.
A pergunta que me faço e ao leitor é: será esse o melhor sistema de governar? Talvez o fosse, quando havia barreiras intransponíveis para o reunião de todos os cidadãos para deliberar sobre qualquer assunto. Mas tais barreiras não existem mais. Cem milhões de pessoas podem votar para a saída de algum participante de um reality show. Por que, então, os cidadãos não poderiam participar mais ativamente do governo da nação?
Além de propiciar maior transparência nas decisões do governo, uma democracia mais participativa teria o poder de trazer todas as minorias para o debate social. Talvez, lentamente, a maioria passasse e respeitar os anseios das minorias. E, o mais importante, chegar ao ponto que Platão tanto criticava: “A democracia é uma constituição agradável, anárquica e variada, distribuidora de igualdade indiferentemente a iguais e desiguais”. Não seria exatamente este o ponto: chegar ao respeito e inclusão de todos? Trata-se não de levar todos à igualdade, mas de levar a igualdade a todos. Qual o direito mais igualitário, senão o de sermos todos diferentes?
Democracia modernamente não significa governo de muitos sobre poucos, mas governo para inclusão de todos no processo social. Temos que ter o esclarecimento de que não é porque nossas opiniões são majoritárias que devem ser impostas a todos, quando se trata de questões de foro íntimo.
Quando eu digo que não é um governo de muitos, não quero com isso dizer que uma minoria deve governar. Quero salientar que a democracia deve ser um governo de todos, com a inclusão de todos no processo. Por exemplo, não é porque sou heterossexual que devo determinar que todos o sejam, ou cercear os direitos daqueles que não o são. Incluir também os homossexuais é um exemplo de democracia inclusiva.Em questões de foro íntimo, que não interfiram na vida pública, os particulares devem ter o direito de se determinarem, por mais minorias que sejam. Até que o termo minoria deixe de fazer sentido em outro âmbito que não o estatístico.

Amâncio Siqueira

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Para maiores


quarta-feira, 4 de agosto de 2010

De fantasmas esquecidos e consciências entorpecidas

“A necessidade de encontrar alternativas ao petróleo já é ponto pacífico. Queremos convencer as pessoas de que todos sairão ganhando com isso. É bom para o meio-ambiente, é bom para a segurança nacional, é bom para a economia, é bom para o futuro dos nossos filhos e, por incrível que pareça, também é bom para o futuro dos povos do Oriente Médio. Qualquer governo que consegue gerar tantas divisas simplesmente porque perfura o solo não tem nenhum tipo de incentivo para educar as crianças, dar estudo às mulheres, envolver o povo no processo político; não tem motivo para fazer nada além de perfurar o solo e extrair o óleo negro (…) É uma vida cômoda, cheia de belos palácios.”

Carl Luft, Instituto para Análise de Segurança Global

O tampão desenvolvido para parar o vazamento de óleo na bacia do Golfo do México tem um poder incrível. Não apenas estancar o mais terrível desastre natural da história, como também mergulhar nossas consciências em torpor, estancando nossa própria indignação com o irrecuperável prejuízo para a fauna e a flora globais. Um tampão para a memória, trazendo um esquecimento que nos prepara para um novo século de petróleo.

Desde a perfuração do primeiro poço de petróleo pelo norte-americano Dake, em mil oitocentos e cinquenta e nove, os combustíveis fósseis queimaram sem parar, tornando-se a principal fonte de energia e matéria-prima das civilizações. Nos cento e cinquenta anos seguintes, a população humana saltou de um para sete bilhões. Passamos do navio a vapor para o ônibus espacial, do telégrafo à internete.

Tais avanços cobraram seu preço em vidas. Não apenas humanas. Somente a civilização baseada no petróleo poderia produzir guerras como a primeira e a segunda mundiais, ou os conflitos estadunidenses com Afeganistão e Iraque. Tais conflitos têm o petróleo por raiz ideológica ou como energia logística; ou ambas. Quanto mais aumenta o poder econômico advindo do ouro negro, mais recrudescem os regimes políticos dos países produtores. Países do Oriente Médio que foram outrora democráticos, ou ao menos respeitosos com os direitos femininos e das demais minorias, tornaram-se regimes teocráticos, fundamentalistas, preconceituosos e reacionários. Contudo, foi o meio-ambiente o mais prejudicado. O último século presenciou a maior extinção de espécies dos últimos sessenta e cinco milhões de anos, num processo crescente de degradação ambiental que não se alimenta apenas do petróleo diretamente derramado, como ainda dos gases tóxicos lançados na atmosfera, dos produtos plásticos que têm no petróleo sua matéria-prima e, indiretamente, na consequência do crescimento populacional desenfreado.

Os irmãos Wachowski levaram seu agente Smith a constatar: os seres humanos não são mamíferos: são vírus. Em nossa voracidade, buscamos a dominação de todo o globo sem a precaução do futuro. Como vírus que matam o hospedeiro, os humanos estamos matando o solo, a água e os seres vivos dos quais nos servimos. O petróleo, resíduo de depósitos sedimentares de matéria orgânica e seres vivos que vieram antes de nós em milhões de gerações, é um fantasma que nos acusa de incompetência para gerir nosso desenvolvimento de maneira sustentável. Um avantesma que nos diz “sou o fruto de infinitas mortes, e vos servirei para mortes infinitas”.

O Brasil tem a liderança global na produção de combustíveis e matérias-primas alternativas, com avançadas tecnologias e uma moderna compreensão do nosso papel no mundo. Todavia, a descoberta de óleo no pré-sal causou um recrudescimento em nossa agenda de sustentabilidade. Delfim Neto bem observou que o “pré-sal é agenda do século vinte, não do vinte e um.”

Em questões tão delicadas quanto esta, cabe-nos evitar o romantismo dos ecólogos mais radicais, mas também o mau-caratismo dos capitalistas preocupados unicamente com lucros. Se nosso avanço até aqui foi garantido através do petróleo, ele agora é um risco não apenas para nosso planeta, como também para nossas sociedades, para a segurança de nossos direitos, para a sustentação da paz. Não bastam os avanços técnicos, se continuarmos prisioneiros de conflitos medievais.

Talvez a chama que iluminará nosso futuro deva ser acesa por combustíveis renováveis e não poluentes, para que continue a nos iluminar sem o risco de apagar toda a vida na Terra.
Amâncio Siqueira

quarta-feira, 21 de julho de 2010

De temerário inoportunismo

“Vamos falar somente disso, sábios ilustres, mesmo que seja discurso péssimo. Calar é pior ainda. Porque todas as verdades que nos recusamos a dizer se tornam venenosas.”

Nietzsche


Para além da teoria literária, adiante da crítica, após o horizonte do livro, subjazem conceitos que se transferem da obra para seu feitor. O ofício da escrita, assim como qualquer outro, exige alguém qualificado intelectual, emocional e fisicamente. A esse profissional da escrita chamaremos escritor, do qual falaremos um pouco mais, para diferenciá-lo daqueles que apenas escrevem e que não devem se confundir com escritores.
Deixemos à parte a técnica, a dedicação, o árduo trabalho de tecitura do texto, e voltemos nossa atenção para algo de suma importância na produção daquilo que podemos chamar verdadeiramente escritor: a personalidade.
O escritor não poderia deixar de ser um homem comum, como os que mais o sejam. Comum a ponto de tornar-se totalmente diferente, um solitário desdenhado por aqueles que não compreendem sua necessidade de compreender. Solitário não porque se ache especial: apenas percebe que as vidas ao seu redor são tão insignificantes quanto a sua própria. É exatamente esse senso de que nada tem de especial que o leva à aventura de espelhar na arte o trágico de ser humano. Apenas os mais humanos podem transcender a individualidade de homem para redimir ou condenar toda a humanidade. Percebem que a única maneira de atribuir sentido ao absurdo do existir é por intermédio da arte.
O escritor não tem medo. Não apenas é corajoso, mas também temerário. Não se trata apenas de não correr do perigo: trata-se de correr para o perigo. O escritor é o perfeito inoportunista. Jamais perde uma oportunidade de ser inoportuno, de bradar verdades dolorosas para todos, para ele inclusive. Não à toa será chamado pelos desafiados víbora: sua verdade é venenosa até mesmo para si. Não pode prendê-la, guardá-la, escondê-la.
O escritor não é aquele que mais sabe de si mesmo ou do mundo. É tão somente aquele que temerariamente não nega o que sabe, aquilo que todos sabem, mas não conseguem admitir. Prefere o veneno da verdade à mentira analgésica de cada dia.
O escritor não se permite ter fé. A fé congela a alma, paralisa o intelecto, ilude os sentidos. Tudo no escritor pede calor, movimento, sensação. Mesmo a ilusão que sai da mente do escritor contém uma venenosa realidade. O personagem é um microcosmo que copia o movimento celeste, ou um macrocosmo para simulação de acasos quânticos.
A verdade é açoite, e o escritor auto-flagela-se antes de açoitar seu público.
Diante do mundo que o ameaça, utiliza-se da mais perigosa técnica de auto-defesa: desfere com suas palavras o mais duro golpe possível, sobre o mais poderoso dogma. Bate da forma mais dolorosa contra o lugar mais doloroso do que se chama autoridade. Maldição para o escritor é não ser amaldiçoado. Cobiça uma milhar de religiões, para conquistar uma milhar de excomunhões. Deseja um milhão de deuses, para ser condenado a um milhão de infernos.
No mais profundo da psiquê do escritor há o temor da segurança. Como sobreviverá sua alma em plácida serenidade? Reside aí uma vontade que o conduz à sua obra: o desejo da fogueira.
Amâncio Siqueira

domingo, 18 de julho de 2010

Sobre questões culturais e religiosas e liberdade


A Assembleia Nacional francesa aprovou um projeto de lei que proíbe o uso em público de burca ou de outro veu que cubra o rosto. Pelo projeto, mulheres vistas em público de burca ou niqab - que deixa apenas os olhos à vista (há vestimentas que sequer deixam o olho à mostra, cobrindo-o com uma fina rede) - terão que pagar multa de 150 euros. Se um homem obrigar a mulher a usar esses veus será multado em 30 mil euros e pode pegar um ano de cadeia.

Muitos defensores da “liberdade cultural e religiosa” têm se posicionado contrários à decisão.

A mais corrente analogia que se faz mundo afora é entre a burca e o hábito das freiras. Impressionantemente, as pessoas que tecem essa tosca comparação são os defensores do viés religioso. Deveriam lembrar que as freiras não usam o hábito porque o marido manda, até porque não se casam. Também não escondem o rosto. Podem deixar o claustro quando desejarem. Algum defensor do direito dessas mulheres de exercer sua religiosidade acredita mesmo que elas podem deixar o uso do veu quando desejarem? Por que será que em Cabul, depois da queda do Talibã, mulheres deixaram de usar os veus e passaram inclusive a exibir unhas pintadas? Teriam deixado de ser religiosas?

Outro ponto importante: países de população majoritariamente islâmica já proibiram a burca em locais públicos, como a Turquia e a Tunísia. A verdade é que tal vestimenta nada tem que ver com exercício da religiosidade. Se assim fosse, os homens também a usariam. Tais vestes são utilizadas por uma regra patriarcal e arbitrária imposta por homens inseguros em relação às mulheres, que se negam a enxergá-las como seres humanos.

Ser contra a proibição de burcas por questões culturais, pelo direito das mulheres de “expressarem suas crenças”, é como ser contra a Lei Maria da Penha, levando em conta que é cultural no Brasil e América Latina chegar bêbado em casa e espancar a mulher. Tem mulher que gosta. Deve ser permitido, então?

As mulheres participam de atos violentos como a retirada cirúrgica do clitóris de meninas em determinados países. Algumas mulheres apóiam, é parte da cultura. Devemos permitir que tal aberração ocorra em nosso país?

Que tal permitir que mulheres sejam proibidas de votar ou trabalhar, desde que seja parte de sua cultura?


Quando um indivíduo gosta de algo simplesmente porque foi educado, adestrado, espancado e condicionado a gostar, cabe sim ao Estado intervir. Não duvido nada que as mulheres passem a mostrar rostos marcados por hematomas, quando se virem livres das burcas.


Evidentemente, a lei não é para proteger apenas essas mulheres. Não sou tão inocente a ponto de não perceber o lado ideológico agindo aqui. Há um contexto bem maior e mais importante, que diz respeito principalmente às mulheres europeias: os povos islâmicos se reproduzem mais rapidamente que os não islâmicos, e seus filhos migram principalmente para a Europa. Em algumas décadas, serão maioria nesse continente. Cabe às mulheres europeias (e àqueles que lhes são simpáticos) lutar contra as leis culturais islâmicas de submissão feminina, para que, quando muçulmanos forem maioria, não consigam impor suas leis com o apoio das suas mulheres.
As mulheres muçulmanas merecem o exercício do direito a votar e ser votadas, a trabalhar, e tomar decisões sobre o próprio corpo. Depois que conquistarem esses direitos, não abdicarão deles por “questões culturais”.

Aí, sim, aquelas que preferem usar um veu que lhes cubra todo o corpo, inclusive os olhos, que lhes tolha movimentos e a própria visão, que dificulte mesmo sua respiração, poderão fazê-lo, se assim desejarem. Então se saberá que o uso se dá por questões religiosas, não por imposição masculina.

Socó Pombo

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Programação do 20º Festival de Inverno de Garanhuns - FIG


O Festival de Inverno de Garanhuns (FIG) chega à 20ª edição comprovando seu fôlego multicultural. Entre os dias 15 e 24 de julho, 17 polos atrativos irão tomar a Cidade das Flores oferecendo ao público uma programação que contempla não só áreas diversas como também um público de diferentes expectativas. Serão 10 dias de oficinas, fóruns de discussão, ações gastronômicas, shows, espetáculos de teatro e dança, exposições de arte e fotografia, mostra de cinema e circo.

Nesta edição, o FIG homenageia os 50 anos do Movimento de Cultura Popular, que, de 1960 a 1964, durante o governo de Miguel Arraes e Pelópidas Silveira, revolucionou o sistema de educação e alfabetização do Estado por meio da articulação cultural. A expectativa da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), que realiza o evento em parceria com a Prefeitura de Garanhuns, é de que mais de 400 mil pessoas circulem na cidade durante os 10 dias do evento.
Apesar das tantas opções, é para a programação do Polo Guadalajara que a atenção do grande público converge. Por lá, a programação começa sempre às 21h e o responsável pela abertura da programação geral do FIG 2010 é Alceu Valença, que encerra a noite do dia 15. Até o dia 24, nomes do porte de Gal Costa, Paralamas do Sucesso, Skank, Pitty, Móveis Coloniais de Acaju, Elba Ramalho, Adilson Ramos e Reginaldo Rossi passam por lá também. A missão de encerrar a programação desse ano ficou a cargo de Paulinho da Viola.


Programação artística oficial


20º Festival de Inverno de Garanhuns


PALCO GUADALAJARADe 15 a 23 de julhoLocal: Esplanada Guadalajara, a partir das 21h


Quinta – 15 de julho
· Muendas de Pernambuco (Garanhuns-PE)
· Orquestra Popular do Recife (PE)
· Espetáculo Pernambuco Nação Cultural (PE)
· Alceu Valença (PE)
Sexta – 16 de julho
· Nação do Samba (Garanhuns)
· Trio Pouca Chinfra (PE)
· Gal Costa (BA)
· Belo Xis com Neguinho da Beija-Flor (PE/RJ)
Sábado – 17 de julho
· Rogério e os cabras (Garanhuns-PE)
· Dona Zefinha (CE)
· Móveis Coloniais de Acaju (DF)
· Skank (MG)
Domingo – 18 de julho
· Banda Flash (Garanhuns-PE)
· Tarcys Andrade, Banda Labaredas e Geneci (PE)
· The Fevers (PE)
· Adilson Ramos (PE)
Segunda – 19 de julho
· Cascabulho (PE)
· Gláucio Costa (Garanhuns-PE)
· Homenagem ao Mestre Camarão (PE)
· Elba Ramalho (PB)
Terça – 20 de julho
· Paulinho Groove (Garanhuns-PE)
· Orquestra Popular da Bomba do Hemetério (PE)
· Septeto La Botija, Eva Grinan e Gabino (Cuba)
· Reginaldo Rossi (PE)
Quarta – 21 de julho
· Karla Rafaella (Garanhuns-PE)
· Volver (PE)
· Beeshop – Lucas/Fresno (SP)
· Pitty (BA)
Quinta – 22 de julho
· Instinct Noise (Garanhuns-PE)
· Sandália de Prata (SP)
· MV Bill (RJ)
· Marcelo D2 (RJ)
Sexta – 23 de julho
· Lucioly Maranhão (Garanhuns-PE)
· Ligiana (DF)
· Eddie (PE)
· Os Paralamas do Sucesso (RJ)
Sábado – 24 de julho
· Flávio Pontes e Banda (Garanhuns-PE)
· Patrícia Bastos (AP)
· Jair Oliveira (SP)
· Paulinho da Viola (RJ)