segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Trilogia de diálogos borgeanos

Capa do livro Sobre os sonhos e outros diálogos, de Borges e Osvaldo Ferrari
Jorge Luis Borges, um dos mais profícuos colaboradores deste blogue (continua produzindo mesmo depois de morto), tem publicados pela Editora Hedra em três volumes (Sobre os Sonhos e outros diálogos, Sobre a Filosofia e outros diálogos e Sobre a Amizade e outros diálogos), as conversas que teve com Osvaldo Ferrari, poeta, ensaísta e jornalista argentino, realizadas na biblioteca de Borges, transmitidas pelo Rádio Municipal de Buenos Aires e publicadas no jornal Tiempo Argentino depois das emissões.
Ao longo dos próximos dias aproveitaremos para publicar trechos dos diálogos.

"Se o fato de sonhar fosse uma espécie de criação dramática, então aconteceria que o sonho é o mais antigo dos gêneros literários, inclusive anterior à humanidade, porque, como lembra um poeta latino, os animais também sonham. E viria a ser um fato de índole dramática, como uma peça na qual somos o autor, e também o edifício, o teatro. Ou seja, à noite, todos somos, de alguma maneira, dramaturgos.”
Trecho de
Sobre os Sonhos e Outros Diálogos – Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari

De Literatura e literaturas


“A literatura é uma de minhas ‘loucuras’. Álvaro Lins ensinou-me a distinguir os grandes autores dos medíocres, e assim fiquei vacinado contra a subliteratura.”
Edson Nery da Fonseca

“Então, pelo resto de suas vidas, põem-se a vegetar e a dissipar suas faculdades com aquilo que se chama de leitura fácil. (...) Outra coisa não pode acontecer a não ser um embotamento da visão, uma estagnação da circulação vital e uma degeneração de todas as faculdades intelectuais. É este pão vulgaríssimo que é assado diariamente em quase todos os fornos, com mais frequência do que o puro pão de trigo integral ou de centeio. Infelizmente tem mercado garantido. (...)
Após ter sido alfabetizados, deveríamos ler o melhor da literatura e não somente ficar repetindo para sempre nosso bê-á-bá e nossos monossílabos.”
Henry David Thoreau

Tenho analisado as listas dos livros mais vendidos nos últimos anos. Invariavelmente as primeiras posições carregam os mesmos temas: seres fantásticos vivendo conflitos tipicamente adolescentes (um tipo de adolescente bem americano) e auto-ajuda. Ou um misto de ambos. Depois de vários anos de romances de fantasia adolescente e auto-ajuda no topo, a leitura que faço deste panorama é tenebrosa: não há leitores adultos no Brasil ou, se os há, não chegam à maturidade. Pior, parece que quando chegam à maturidade se deparam com a realidade e não conseguem encará-la, recorrendo à auto-ajuda.
As editoras também não têm se importado com a imaturidade de nossa população ou com o fato de tantos leitores jovens abandonarem o hábito na fase adulta. Cada novo fast food internacional que surge recebe tratamento diferenciado em divulgação e tiragem. Os autores nacionais, a não ser que se adéquem ao modelo fantasia+auto-piedade, são excluídos das livrarias. Os leitores não são vacinados contra subliteraturas e acabam perdendo o gosto pela leitura, pois a leitura que não aprofunda seus temas, que não enraíza na mente do leitor, fatalmente deixará de ser instigante. Leitores com prazo de validade.
Para contribuir para a formação de leitores para toda a vida elaborei um guia de vacinação contra subliteraturas:
Toda grande arte tem por objetivo causar estranheza, emoção, reflexão e reconhecimento. Com a literatura não é diferente. A arte que tem as palavras por matéria-prima deve ter um primeiro impacto no leitor que não o permita permanecer o mesmo. Dupla estranheza, a grande literatura conclama o leitor a repensar-se, pois estranha as palavras lidas e a si mesmo, pelo eco que fazem em sua mente. Para que se gere tal estranheza, necessário é que o sentido não seja único e evidente. Que haja significações que gritam e silenciam nas linhas, entrelinhas, sublinhas, sobrelinhas e principalmente nos pontos, nos quais os desafios são lançados à imaginação. Primeira lição: desconfia do livro descrito sempre com as palavras “com linguagem clara e acessível”. Trata-se de um livro que não pretende a estranheza, não pretende buscar no mais frio recôndito de tua alma o que há de agreste. Um livro que não pretende que tu te denuncies a ti mesmo. É um livro “despretensioso”.
Um livro pretensioso alcançará os subconscientes sentimentos, os inomináveis anseios. Delatará uma vivência em dor e desejo que sempre tiveste. As emoções aflorarão não das palavras lidas, mas das palavras que tua alma dirá quando leres a boa literatura. O bom livro é um espelho que reflete o leitor, não em seus preconceitos e em suas mentiras, mas tal qual é. E é neste selvagem reflexo que residem a estranheza e a emoção. Lição dois: desconfia do livro que incita ao autocontrole, à paz de espírito. Desconfia do livro que quer ensinar a ser feliz, a viver sem dor. Um humano sem dor é menos que um animal doméstico. Um livro sem dor é menos que subliteratura.
Um grande livro não traz em si soluções. Desconfia do livro que, uma vez fechado, não incita a ser repensado, a ser discutido. Desconfia do livro que acaba quando termina. Sobretudo evita o livro que se quer fazer dogma. Um livro que se fecha em si mesmo é perigoso como uma pessoa que acredita ter todas as respostas. Foge de ambos. Esta foi a terceira lição.
Antes de falar do reconhecimento, cabe salientar que nada é tão simples, principalmente quando se trata de obras de arte. Estas lições são como as camadas de uma mousse. O bom livro justapõe as camadas e seu sabor é insuperável. É no sabor que reside o reconhecimento. Como diria Rubem Alves, o bom livro carrega a carne e o sangue do seu autor transmutados em palavras. Se essas forem saborosas ao leitor, haverá comunhão. O leitor sentir-se-á parte daquele livro que é agora parte dele. Reconhecer-se-á nas palavras escritas e subentendidas. Ler é ler-se. Quarta lição.
Importante: em todo processo evolutivo os seres devem conhecer as normas para depois esquecê-las.
A literatura, como arte que é, é um processo. Um processo individual e coletivo. Nele, não apenas a arte ascende em auto-descoberta. Também o povo que a produz, também o leitor que a consome se auto-descobre. E todo processo exige evolução e esforço.

Amâncio Siqueira

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Renovação



Em menos de dois meses pagãos comemorarão o nascimento do Sol Invicto ou da Deusa; cristãos, o nascimento de Jesus Cristo; membros de outros credos, a renovação do ciclo solar; ateus, férias e feriados. Todos comemoram no período natalino o fim de um ciclo e início de outro. É a renovação da vida, uma nova aliança com o novo. O descanso de anteriores batalhas para lançar-se, de mente descansada e coração encorajado, na guerra incessante que é esta vida.
O Phallos passará por um tempo de atualizações apenas semanais, devido à momentânea dificuldade de acesso dos seus editores à internete, e aproveita estes próximos dias para indicar uma árvore que representa uma renovação para todo o ano. Dependendo dos galhos escolhidos, uma renovação de toda uma vida.
Boas festas e feliz vida nova.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Indicações de leitura do Phallos - parte II

Foto: Bela livraria Lello do Porto - Portugal
As phállicas indicações de leitura, tendo por base o índex librorum prohibitorum, seguem com autores não ficcionais, em sua maioria filósofos:
Thomas Hobbes 1649-1703 Todas as obras
René Descartes 1663 Todos os trabalhos filosóficos
Francis Bacon 1668 Obras científicas (indicamos muito mais de Bacon. A Nova Atlântida é uma Utopia talvez mais cientificamente notável que a utopia de Morus)
Michel de Montaigne 1676 Ensaios
Baruch Spinoza 1690 Todos os trabalhos póstumos (indicamos também o Tratado teológico-político, publicado anônimo)
John Milton 1694 Papéis do Estado (não podemos deixar de acrescentar sua obra-prima Paraíso Perdido)
Joseph Addison 1729 Remarks on seven parts of Italy (não conhecemos este autor e não encontramos textos em português)
Richard Steel sem data Account of the State of The Roman Catholic Religion (não conhecemos este autor e não encontramos textos em português)
John Locke 1734-1737 Ensaio sobre o entendimento humano
Emanuel Swedenborg 1738 De Principia
Daniel Defoe 1743 História do Diabo (não encontramos traduções em português)
David Hume 1761-1872 Todas as obras
Jean-Jacques Rousseau 1762-1806 O contrato social (indicamos também o tratado sobre a origem da desigualdade entre os homens)
Edward Gibbon 1783 Declínio e queda do Império Romano
Blaise Pascal 1789 Cartas Provinciais (indicamos também Pensamentos e Ensaios)
Oliver Goldsmith 1823 Uma breve história da Inglaterra
Immanuel Kant 1827 Crítica da Razão Pura (não poderíamos deixar de indicar a crítica da razão prática)
Giovanni Casanova 1834 Memórias (não se trata de escrito filosófico, mas não deixará de ser instrutivo)
John Stuart Mill 1856 Princípios de Política
Ernest Renan 1889-1892 Vida de Jesus
Emile Zola 1894-1898 Todas as obras
Andrew Lang 1896 Mito, Rito e Religião
Kalr Marx sem data Todas as obras (indicamos também Friedrich Engels)
Arthur Schopenhauer sem data Todas as obras
Friedrich Nietzsche Todas as obras
Henri Bergson 1914 Evolução Criativa
Charles Darwin sem data A Origem das espécies (indicamos suas outras obras sobre a viagem a Galápagos e estudos comparados)
Thomas Huxley sem data Todos os trabalhos científicos (incluímos aqui seu neto, Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo e Sem olhos em Gaza)
Benedetto Croce 1934 Filosofia e História
Jean-Paul Sartre 1948 Todas as obras

Esta lista de indicações é apenas um norte para o leitor iniciante enveredar pelo universo do conhecimento e do prazer da leitura. É evidente que ao longo do tempo realizaremos resenhas das obras indicadas. Na próxima e última parte, um apanhado do Opus Dei.
Socó Pombo

O mundo não existe


- Pobre Amita! É tudo que podes dar? Um pouco de melão? Um pouco de felicidade?

- Eu sei quem tu és. Tem piedade de mim. Me dá a esmola mais elevada!

- Fecha os olhos, os ouvidos, a boca, as narinas, os dedos; fecha o espírito, esvazia as entranhas. O mundo não existe! Nada existe; nada existe, tudo é fantasma de nosso espírito faminto, de nossa alma que tem medo. Nada existe, a não ser o grito de meu coração. Isto me basta.

Nikos Kazantzakis - Toda Raba

Balada para um Louco

Pintura: Bosch - A nau dos Loucos

Uma lembrança viva da minha adolescência é a lojinha de tia Estela. Tal lojinha ficava na minha rua e o "vendedor" era o Plameira. Grande divulgador de literatura e incentivador da leitura que é o Palmeira, o apertado espaço da loja, coisa de oito metros quadrados, tornou-se ponto de encontro da elite literária afogadense: os adolescentes Amâncio Siqueira, Márcio Jardson, Jahiel Nunes e Edgar Cruz. Vez por outra, Jean Carlos, Bruno Senhor e Nailton Barbosa davam as caras. Roubávamos livros uns dos outros, e uns roubavam os livros roubados dos outros e emprestavam para os antigos proprietários, que os devolviam aos ladrões originais. Acredito que todos os citados lembram-se do aparelho de som que Palmeira tinha no local. Um toca-fitas já bem surrado. As fitas que ele levava também já não estavam em bom estado. Mas as músicas que adivinhávamos ao ouvi-lo eram uma haste de algodão para ouvidos entupidos de forró estilizado, sertanejo country e axé. Havia de um tudo: Ravel, Wagner, Raul, Chico, Milton e muito mais. Entre as músicas, uma me chamou especial atenção: Balada para um louco (viva os loucos que inventaram o amor), na voz de Moacir Franco. É claro que eu não sabia o título naquele tempo. A fita não tinha, pelo que lembro, o intróito, começando diretamente no trecho "Louco, louco, louco...". Quando digo que adivinhava a música não estou brincando. Minha versão, ou seja, o que ouvia dos ruídos do som era o seguinte:
Louco, louco, louco, foi o que disseram quando disse que te amei,
Mas naveguei nas águas turvas dos teus olhos,
E confesso, fui Antibes, e invadi teu coração.
Trazemos aqui a versão completa em vídeo e apresentamos não apenas o título, como também a autoria, de Astor Piazzolla e Horácio Ferres. Como o Phallos não é um blogue de memórias, embora sejam as memórias que nos levem a escrever, o objetivo aqui não é apenas relembrar, mas despertar o interesse de novos leitores e ouvintes. Trata-se de um incrível poema à liberdade, à criatividade, à alegria. Um elogio à loucura que ilumina a vida. Sim, o amor é para os loucos, então que estes o cantem.
"Como um acrobata demente saltarei
dentro do abismo da tua mente, até sentir
que enlouqueci teu coração e, de tão livre, chorarei."
Amâncio Siqueira




domingo, 25 de outubro de 2009

Heterônimos e vida interior

Caricatura: Fernando Pessoa por Almada Negreiros

É possível que, mais tarde, outros indivíduos, deste mesmo gênero de verdadeira realidade, apareçam. Não sei; mas serão sempre bem-vindos à minha vida interior, onde convivem melhor comigo do que eu consigo viver com a realidade externa. Escuso de dizer que com parte das teorias deles concordo, e que não concordo com outras partes. Estas cousas são perfeitamente indiferentes. Se eles escrevem cousas belas, essas cousas são belas, independentemente de quaisquer considerações metafísicas sobre os autores "reais" delas. Se, nas suas filosofias, dizem quaisquer verdades - se verdades há num mundo que é o não haver nada - essas cousas são verdadeiras independentemente da intenção ou da "realidade" de quem as disse.
Fernando Pessoa

sábado, 24 de outubro de 2009

Libertadora noite

Oh, noite! Oh, consoladoras trevas! Sois para mim o sinal de uma festa interior, sois a libertação de uma angústia! Na solidão das planícies, nos labirintos pedregosos de uma capital, vós sois, ó cintilação das estrelas, ó explosão das lanternas, o fogo de artifício da deusa Liberdade!

Charles Baudelaire



Perde-te na admiração do ser admirado

Pintura: Chagall - O casal (a sagrda família)

Não enxergo aproximação sem admiração.
Fulana, somos feitos para a admiração. Admirar a formosura com a qual o homem veste a roupa, os dizeres. Admirar a forma como ele contempla um pôr-do-sol, uma orquídea, uma criança. Admirar como ele se comove com a velhice, com a infância da velhice. Admirar sua lealdade com a intensidade, com os amigos. Admirar seu bom gosto por músicas clássicas, como declama poemas do Pessoa, o jeito como cerra as pálpebras. Admirar-se com a forma com que a mulher põe o rímel, o baton, os acentos nas palavras. Como cuida dos filhos esquecendo-se de si. Como cuida do marido esquecendo-se de si, como cuida do jardim esquecendo-se de si; como cuida de si, lembrando dos filhos, do marido e do jardim. Admirar. Admirar-se.
Admirar com a voluptuosidade de olhos que se derramam sobre as palavras de um romance, de um poema, de um bilhete de amor, como se fosse nudez desejada. A minha admiração veio da sutileza de algo em ti. Ainda não sei bem dar nome ao que vi. É preciso admirar e perder-se na admiração do ser admirado.
Alessandro Palmeira

Vote na nossa enquete

Barraca da equipe phállica

No fim da página, antes do Dom Quixote, você encontrará a nossa enquete. Faltam apenas dez dias para votar e ajudar-nos a montar um perfil dos leitores do nosso blogue.
Aproveitamos para comemorar com você, fiel leitor, termos chegado à marca dos cinquenta visitantes. É tamanho o sucesso deste blogue que temos sido convidados para vários eventos, como o carnaval de Salvador e inúmeros bailes funk. Você pode verificar acima que sempre vamos para tais locais, além das festas regionais que já frequentávamos antes da fama, com nossa barraca já montada.
Não se pode desperdiçar estas oportunidades de diversão.