quinta-feira, 28 de julho de 2011

A mentira que somos! Nós, os hipócritas!

Foto extraída do Flickr de Niobe.13

Estou em plena Praça Arruda Câmara, centro de Afogados da Ingazeira. Crianças correm de um lado para o outro, o vento acarinha as folhas das árvores mais copadas, uma coruja risca, velozmente, o céu. A lua, tímida, se esconde entre uma nuvem e outra. Faz frio, busco aquecer-me usando o cobertor das palavras, os questionamentos que a minha imaginação teima em rabiscar. É noite. “Zabé Galinha”, figura mítica da cidade, perambula trôpega de aguardente e abandono. Rejeita os afetos, os consolos, a moral; quer os centavos, a embriaguez, a intensidade. Rejeita os princípios, busca os precipícios. Farta da vida? Não! Cheia de vida! Mendiga para continuar vivendo! Ou seria, continuar morrendo? Há mais metafísica em Zabé que na poesia do Pessoa, há mais filosofia nela que nos enormes compêndios filosóficos escritos com exaustão pelos filósofos ao longo dos séculos. Há nela mais existência que em cada minuciosidade da Bíblia. Blasfêmia? Não! Verdade!

Devagar, com vagar, me volto para a beleza gótica da catedral, orgulho dos afogadenses, deslumbre para os olhos. Baixo um pouco o olhar, e deparo-me com a contradição, o absurdo. Nós, eu e o mendigo. A beleza e a tristeza de mãos dadas. Mendigo que ali está, de mãos separadas de toda a caridade. Eu e minhas insignificantes palavras; ele e sua fome, e seu silêncio e sua desmedida solidão. Eu e minha hipocrisia.

O silêncio do mendigo que deita sua fome; na calçada da catedral do Senhor Bom Jesus dos Remédios, possui mais eco que qualquer homilia proferida em seu interior. A gramática do seu silêncio verbaliza melhor a fé que os discursos decorados do eclesiástico. Há mais religião em seus sujos farrapos que nos rosários das carolas que transbordam indiferença. O seu estar no mundo é mais digno de louvor e reverência do que as imagens moldadas em gesso e madeira que habitam aquele lugar. Esconder-se nos muros frios e arcanos de uma religião é algo sórdido, desprezível, é indigno das chagas de cristo. Do seu morrer, do seu ressuscitar. Olhemo-nos. Não a nossa vaidade, mas a nossa mentira. Não o mundo que inventamos, mas as pessoas que de fato somos, a grande mentira que somos, a verdade que fingimos ser.

Não sei do mundo; nem de mim. Como não sei com qual ousadia me atrevo a discorrer sobre o estar das pessoas no mundo; mas não quero viver fingindo-me cego aos seus/nossos melancólicos aconteceres. E você?

Alessandro Palmeira

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Festival da Palavra em Garanhuns

Paralelamente ao Festival de Inverno de Garanhuns acontecerá o Festival da Palavra, com programação rica, que bamboleia do popular ao cult, do abstrato ao concreto, da fama ao esquecimento.

Site do Festival da Palavra

Blog comandado por Helder Herik, Wagner Marques e Mariane Bigio, com novidades sobre o Festival, videos e entrevistas com escritores e leitores. O público pode participar de sorteios diários de livros.

Disk Literatura – Poesia Delivery

O público pode solicitar pelo Disk Literatura recitais em suas casas. Um serviço gratuito levará os poetas para os destinos solicitados.

Poesia no Beco

O beco da Academia de Letras de Garanhuns receberá painéis para que os poetas deixem seus poemas. Cada página do painel será transformada em páginas digitais de um livro que será publicado e atualizado durante todo o festival aqui no blog da palavra.

A palavra perfeita

15 de julho (sexta-feira)

15h às 16hPALAVRA NO MEIO DO MUNDO – Poesia no beco – Abertura da intervenção poética e grafitagem com os escritores participantes do Festival da Palavra, com a participação do acadêmico e presidente da Academia de Letras de Garanhuns, João Marques.

LOCAL: Academia de Letras de Garanhuns

17h – às 18h – PALAVRA NO PALCO – Recital Cantos (DI) Versos – Com Chico Pedrosa, Marcos Passos, Marconi Melo, Adiel Luna e Tiago Martins.

LOCAL: Palco da Cultura Popular

19h às 20h - BERLINDA PALAVRA – Crime é o amar - Marcelino Freire conversa com Artur Rogério sobre amor, literatura e outras mentiras. Mediação: Nivaldo Tenório.

LOCAL: Academia de Letras de Garanhuns

20h – LANÇANDO A PALAVRA - Marcelino Freire autografa seu livro “Amar é crime” e conversa com os leitores.

LOCAL: Bar Budega

16 de julho (sábado)

10h às 12h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – Carroça do Encantado - Atores e músicos realizam intervenção poética urbana pelas ruas de Garanhuns

LOCAL: Centro

10h às 12h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra- Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Mariane Bigio e Artur Rogério.

LOCAL: Bairro Boa Vista

16h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – Carroça do Encantado - Atores e músicos realizam intervenção poética urbana pelas ruas de Garanhuns

LOCAL: Parque Euclides Dourado

16h às 18h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra - Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Valmir Jordão e Miró.

LOCAL: Bairro Boa Vista

19h às 20h - PALAVRA NO PALCO – Tríaderecital de poesia homoerótica. Com Raimundo Moraes e Klayton Cabral. (PÚBLICO ADULTO)

20h – PELEJA DA PALAVRA - Concurso de recitação em que o público é o júri. O vencedor fará uma participação especial no Caminhão da Cultura.

LOCAL: Bar Budega

17 de julho (domingo)

10h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra- Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Mariane Bigio e Artur Rogério.

16h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Valmir Jordão e Miró.

17h30 – PALAVRA NO PALCO – Vire a página – Recital com o Grupo Vozes Femininas.

LOCAL: Academia de Letras de Garanhuns

19h - LANÇANDO A PALAVRA – Silvana Menezes autografa seu livro “Vire a página” e conversa com os leitores.

LOCAL: Bar Budega

18 de julho (segunda-feira)

9h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – Poesia ao pé do ouvido – Intervenção poética em comunidades do programa Arca das Letras, com Silvana Menezes.

LOCAL: Castainho

10h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Mariane Bigio e Artur Rogério.

15h - PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – Poesia ao pé do ouvido – Intervenção poética em comunidades do programa Arca das Letras, com Silvana Menezes.

LOCAL: Timbó

15h às 18hBERLINDA PALAVRACírculo de Leituras: Dois sertanejos na metrópole. Sidney Rocha conversa com Cícero Belmar. Mediação: Manuel Constantino.

LOCAL: Academia de Letras de Garanhuns

16h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Valmir Jordão e Miró.

19 de julho (terça-feira)

9h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – Poesia ao pé do ouvido – Intervenção poética em comunidades do programa Arca das Letras, com Silvana Menezes.

LOCAL: Jardim

10h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Mariane Bigio e Artur Rogério.

LOCAL: Bairro Indiano

15h às 17h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – Poesia ao pé do ouvido – Intervenção poética em comunidades do programa Arca das Letras, com Silvana Menezes.

LOCAL: Caluete

15h às 18hBERLINDA PALAVRA – Círculo de leituras: Senhores do destino. Raimundo Carrero conversa com Paulo Santos. Mediação: Manuel Constantino.

LOCAL: Academia de Letras de Garanhuns

16h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Valmir Jordão e Miró.

LOCAL: Bairro Indiano

20 de julho (quarta-feira)

9h às 11h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – Poesia ao pé do ouvido – Intervenção poética em comunidades do programa Arca das Letras, com Silvana Menezes.

LOCAL: Estrela

10h às 12h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Mariane e Malungo.

LOCAL: Bairro Cohab I

15h - PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – Poesia ao pé do ouvido – Intervenção poética em comunidades do programa Arca das Letras, com Silvana Menezes.

LOCAL: Estivas

15h às 18h BERLINDA PALAVRA – Círculo de leituras. Literatura em voz alta – Ronaldo Correia de Brito conversa com Cida Pedrosa. Mediação: Manuel Constantino.

LOCAL: Academia de Letras de Garanhuns

16h às 18h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Valmir Jordão e Miró.

LOCAL: Bairro Cohab I

16h às 18h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Wagner Porto e Vitória Gabrielle.

LOCAL: Bairro Magano.

20h – LANÇANDO A PALAVRA - Cida Pedrosa autografa seu novo livro “Miúdos” e conversa com os leitores.

LOCAL: Bar Budega

21 de julho (quinta-feira)

10h às 12h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Mariane Bigio e Malungo.

LOCAL: Bairro Cohab I

15h às 17h - PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – Poesia ao pé do ouvido – Intervenção poética em comunidades do programa Arca das Letras, com Silvana Menezes.

LOCAL: Estivas

16h às 18h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Wagner Porto e Vitória Gabrielle.

LOCAL: Bairro Boa Vista

16h às 18h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Valmir Jordão e Miró.

LOCAL: Bairro Cohab I

20hPALAVRA NO PALCO – Microfone aberto com poetas convidados e da região.

LOCAL: Bar Budega

22 de julho (sexta-feira)

10h às 12h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Mariane Bigio e Malungo.

LOCAL: Bairro Magano

16h às 18h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Wagner Porto e Vitória Gabrielle.

LOCAL: Bairro Boa Vista

16h às 18h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Valmir Jordão e Miró.

LOCAL: Bairro Magano

17h às 18h – PALAVRA NO PALCO – Em cena cordel. Recital poético com os poetas Paulo André, Demétrio Rangel e Jerlane Silva.

LOCAL: Casarão dos Pontos de Cultura

19h às 20h - BERLINDA PALAVRA – Literatura, novas mídias e o livro-objeto. Homero Fonseca conversa com Karina Calado. Mediador: Aristóteles Bastos.

20hPALAVRA NO PALCO – Microfone aberto com poetas convidados e da região.

23 de julho (sábado)

23 de julho (sábado)

10h às 12h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Mariane Bigio e Malungo.

LOCAL: Bairro Magano

16h às 18h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Wagner Porto e Vitória Gabrielle.

LOCAL: Bairro Cohab I

16h às 18h – PALAVRA NO MEIO DO MUNDO – A gente da palavra – Poetas declamam seus poemas de porta em porta por Garanhuns. Com Valmir Jordão e Miró.

LOCAL: Bairro Magano

19h – PALAVRA NO PALCO – Pernambuco mulher fêmea, recital com o grupo Vozes Femininas.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

PROGRAMAÇÃO DE LITERATURA DO SESC NO FESTIVAL DE INVERNO

Marina Colassanti será uma das escritoras presentes

O tradicional Festival de Inverno de Garanhuns terá início na próxima semana e estará recheado de atrações para os amantes da literatura, cortesia do Sesc Garanhuns. Veja a programação abaixo.

Dia: 16

Hora: 16h

Mesa: Olhares sobre Lilith – Interface entre literatura e cinema

Conversa com Alice Gouveia, Cida Pedrosa e Tuca Siqueira.

- Presença das 22 diretoras cineastas participantes do projeto

- Participação especial do escritor Marcelino Freire (PE/SP)

Dia: 17

Hora: 16h

Lançamento do Prêmio Sesc de Literatura 2011

Convidados: Mário Rodrigues (Garanhuns-PE), Menção Honrosa do Prêmio em 2009 e Flávia Tebaldi Queiroz (RJ) Técnica de Literatura do Departamento Nacional do Sesc. Participação especial dos vencedores do Prêmio 2010, Arthur Martins Cecim (PA) e Luisa Geisler (RS).

Provocação de José Manoel Sobrinho coordenador de Cultura do Departamento Regional do Sesc-PE

Dia: 21

Hora: 16h30

Leitura de escritor com Ésio Rafael, Jorge Filó, Sandoval Ferreira e Chico Pedrosa

Provocação de Edison Roberto

Dia: 22

Hora: 16h

Conversa com Bráulio Tavares (PB / RJ) e Oliveira de Panelas (PE)

Dia: 23

Hora: 15h30

Recital com o grupo Vozes Femininas (PE)

Hora: 16h

Conversa com Marina Colassanti (RJ) e Luzilá Gonçalves (PE)

domingo, 29 de maio de 2011

Gritos inaudíveis que ressoam no âmago


No seu Mundo como Vontade e Representação, Schopenhauer, ao discorrer sobre arte, toma como exemplo a escultura clássica Laocoonte, e discorre sobre as motivações do artista para esculpir sua figura central sem uma expressão de quem grita: “Nas artes plásticas, a representação do grito em si mesmo é completamente deslocada, completamente impossível; por conseguinte, a condição do grito – isto é, essa abertura violenta da boca que transtorna todos os traços e todo o resto da expressão – tornar-se-ia realmente incompreensível, visto que desta maneira e decididamente à custa de muitos sacrifícios apenas se representaria o meio, enquanto que o fim verdadeiro, o próprio grito e o seu efeito sobre a sensibilidade, permaneceria por exprimir.”

Teria Edvard Munch lido estas palavras? Teria encarado-as não como uma verdade, mas como um desafio para o artista? Teria passado os dias e as noites imaginando uma “abertura violenta da boca que transtorna todos os traços e todo o resto da expressão”? Não sei. Entretanto, tenho certeza de que Schopenhauer teria mudado de opinião se tivesse visto o quadro O Grito (Skrik), do pintor norueguês, desde que o filósofo alemão abrisse mão de seu classicismo.

Datado de 1893, a pintura símbolo do Expressionismo parece prever o século vindouro, o século da massificação. Massificação da tecnologia, das linhas de produção, do consumo e da guerra. Massificação da morte nas trincheiras, gulags e campos de concentração. Massificação do pensamento.

O pintor escreveu a respeito da experiência que o inspirou a pintar sua obra-prima, nascida O Desespero, na qual a figura central era um homem de cartola, sendo esta versão seguida por diversas outras, até a figura andrógena totalmente desfigurada da versão mais popular:

“Passeava com dois amigos ao pôr-do-sol – o céu ficou de súbito vermelho-sangue – eu parei, exausto, e inclinei-me sobre a mureta – havia sangue e línguas de fogo sobre o azul escuro do fjord e sobre a cidade – os meus amigos continuaram, mas eu fiquei ali a tremer de ansiedade – e senti o grito infinito da Natureza.”

A figura humana aparece “completamente deslocada”, a abertura de sua boca transtorna a própria natureza à sua volta, enquanto a doca de Oslofjord e os homens que passam permanecem indiferentes.

A impossibilidade da pintura de exprimir o grito é exatamente onde reside a força do quadro, sua poderosa carga dramática. O grito mais desesperado passará sem que ninguém esteja atento ao seu barulho. Haverá o barulho do trânsito, das telecomunicações, das máquinas, metralhadoras e bombas. O barulho ensurdecedor da propaganda a determinar como deve comportar-se o homem moderno. Diante disso, o homem que se entende indivíduo deslocado das massas gritará mais e mais, e mais e mais será ignorado.

Contudo, tal grito não cessará, pois é um grito da vontade, um terrível grito da natureza. Creio que Schopenhauer jamais teve acesso a uma obra que tivesse tanta relação com sua teoria estética, que exprimisse tão grandiosamente a marca do gênio, esse ser capaz de exprimir não um conceito, mas uma ideia. Uma ideia que pudesse resumir todo um século por vir, embora não pudesse jamais ser resumida apenas a esse século. Uma ideia que ecoaria ainda por milênios.

Era necessária uma forma de arte absolutamente silenciosa para que esse grito desesperado pudesse ser ouvido.

Socó Pombo

terça-feira, 17 de maio de 2011

São Pecador Lançado em Garanhuns

Na próxima quinta-feira (19), a partir das 20h, estará sendo lançado no Sesc Garanhuns, através do Laboratório de Autoria Literária Luzinette Laporte, o livro O Evangelho de São Pecador, de autoria do escritor Amâncio Siqueira.

O evento acontecerá no Salão de Eventos do Sesc, e contará com a participação do violonista Francis Ferreira.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

De Direitos Humanos, censuras, deferências e Renascimento


“Antes a grande superpotência do seu mundo, o Irã passou a maior parte dos últimos dois séculos sendo saqueado, colonizado e humilhado pelos impérios europeus. Como uma nação xiita numa região dominada por governos árabes sunitas, o país também se sente cercado teologicamente.”


Robert Kagan


Recentemente o acadêmico Paulo Coelho divulgou nota baseada em emeio recebido do seu livreiro no Irã, Arash Hejazi, informando que seus livros haviam sido proibidos naquele país. A ministra da Cultura brasileira, Ana de Hollanda, assim como o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, apressaram-se a tecer comentários reprovadores sobre a atitude do governo iraniano e afirmaram que buscariam impedir a censura ao Coelho.
Um trecho da nota da embaixada iraniana no Brasil negando a censura diz mais sobre a situação no Irã do que as notícias anteriores:
“Infelizmente, esta noticia fora criada e planejada por Arash Hejazi (indivíduo acusado do homicídio da Sra. Neda Aghar Soltan depois das últimas eleições presidenciais, o qual é o principal suspeito e que encontra-se neste momento foragido e procurado), com a colaboração e orientação de agentes dos Estados Unidos da América e Israel, em consonância com um plano global com o intuito de manchar a imagem do Irã, cujo aproveitamento político busca falsificar a verdade. Infelizmente conseguiram juntar-se a personalidades e autoridades no propósito desta armadilha.”
Neda Aghar Soltan foi morta pelas forças governamentais durante protesto contra a corrupção na reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, com um tiro que lhe acertou o coração. Arash Hejazi estava ao lado dela no protesto e tentou salvá-la. Há vídeos que mostram o momento da morte dela, enquanto seu amigo tenta estancar a hemorragia. A teocracia muçulmana ignorou que ele estava desarmado e tentando salvá-la, ignorou o vídeo, ignorou a prova balística e os disparos da polícia, ignorou os direitos humanos e a verdade. Arash vive exilado, pois se for preso será sumariamente condenado à pena de morte, a exemplo do que aconteceu com Sakineh, que ainda não foi executada por pressões internacionais.
O Irã não precisa de um plano global para manchar sua imagem. Eles sabem fazer isso muito bem. Suas eleições foram ainda mais fraudulentas que a de George Bush, ditadas pelo aiatolá Khamenei, o verdadeiro governante do país. Seu antecessor, o líder da Revolução Islâmica aiatolá Khomeini, deixou bem claro o que pensam os teocratas sobre democracia e direitos humanos: “Sim, nós somos reacionários, e vocês são intelectuais iluminados: vocês, intelectuais, não querem que nós voltemos 1400 anos.” Ele tinha razão. Os únicos intelectuais que recordo terem a intenção de voltar mil e quatrocentos anos foram os renascentistas europeus, que buscavam resgatar o passado de esplendor jônico.
Abu Musab Al-Zarqawi, a exemplo de outros líderes islâmicos fundamentalistas, repudia a democracia, pois “o legislador que deve ser obedecido na democracia é o homem, e não Deus.” Eleições transformam o “homem, fraco e ignorante, parceiro de Deus na Sua prerrogativa mais importante e divina – a saber, governar e legislar.” Eles creem mesmo que há homens que falam por deus, que o ouvem e sabem exatamente o que ele quer. E tais homens sabem que seu deus quer sangue e ranger de dentes, que repudia tudo que é novo, inclusive direitos iguais para as minorias. A existência de tantos líderes que se arrogam a prerrogativa de estar acima do legislador humano, como canais diretos para captação da vontade divina, gera distorções para as relações internacionais difíceis de serem solucionadas, pois seu argumento trata discordâncias como blasfêmia, e qualquer opositor como um canal direto para captar a vontade do Diabo.
Tal noção não está presente apenas em alguns países do Oriente Médio, espalhando-se pelo extremo oriente, África e América. O grupo islamista radical al-Shabab proibiu o aperto de mãos entre homens e mulheres na cidade de Jowhar, no sul da Somália. Além de proibir o aperto de mãos intersexual, a organização também vetou conversas em público e até o caminhar lado a lado entre homens e mulheres sem laços familiares. O governo do al-Shabab afirma que todo aquele que for flagrado descumprindo as regras será julgado segundo a lei islâmica, a Sharia, mesma lei utilizada pelo Talibã no Afeganistão.
A Tunísia, Cartago na antiguidade e atualmente um país de governo islâmico, começou a viver uma forte turbulência social, quando jovens e estudantes iniciaram protestos contra os altos índices de desemprego nas ruas da capital Túnis. As manifestações logo tomaram vulto e assumiram uma conotação política, criticando a falta de liberdade política no país.
O governo se viu obrigado a agir. Em meio a pedidos de calma à população, o então presidente Ben Ali anunciou o fechamento de universidades e escolas, enquanto o Exército saía às ruas para frear as manifestações. Passaram a haver confrontos regulares, gerando um número ainda incerto de mortos, mas que já passa de 70, segundo dados do governo. Ben Ali deixou o governo e saiu do país, e o novo governo não parou a repressão aos protestos. Há países de maioria muçulmana que vivem democracias, a exemplo da Turquia, mas esse número era maior quando do fim do Império Otomano.
Diante de tantas violações aos direitos humanos, a literatura perde até um pouco da importância, e estranhou-me especialmente a deferência da prontidão em defender Paulo Coelho, quando tantos outros autores brasileiros são censurados no Irã. Não seria mais positiva uma tentativa de inserir outros escritores nacionais nas livrarias iranianas, como Milton Hatoum, Cristovão Tezza, Chico Buarque, Raimundo Carrero ou Alessandro Palmeira? Ou pedir mais transparência nos procedimentos governamentais em áreas como segurança e direitos humanos?
Não é minha intenção afirmar que o modo ocidental seja melhor que o oriental. Considero a democracia política uma aristocracia mais dispendiosa, com um povo que não toma decisões, mas cujas eleições consomem orçamentos enormes. Sequer a negação do sangue azul foi capaz de impedir o luxo dos governantes. Uma ditadura da maioria como a imposta pela maioria cristã em países do continente americano não é muito diferente da imposta por uma minoria. Basta lembrar que em alguns países latino-americanos mulheres são proibidas de abortar mesmo se o feto tiver origem em um estupro. No país que se considera a lâmpada da democracia no mundo seu ex-presidente George Bush pai declarou que os ateus não deveriam ter cidadania americana, pois seu país fora fundado com base no cristianismo. Os pais fundadores discordariam, mas quando o filho invadiu o Iraque baseado num sonho em que deus lhe disse que o governo de Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa (o que leva a crer que deus anda mal informado e talvez precise atualizar seu sistema de onisciência) a fidelidade à coerência histórica por parte do pai fica em último plano. As religiões abraâmicas não receberam esse nome por acaso: as crianças aprendem com o exemplo do patriarca que, quando deus dá uma ordem, não cabe questionamento, ela deve ser cumprida, mesmo que seja para matar o próprio filho. E as pessoas não param de receber ordens divinas, transmitidas em frequências diferentes para judeus, cristãos e muçulmanos, mas sempre com pedidos de sacrifício.
Pesquisas em países asiáticos indicam que as populações preferem bem estar a liberdade, desenvolvimento a eleições. Não tenho certeza que nosso jeito seja o jeito certo, e estou certo de que impor democracia goela abaixo é um atentado à autodeterminação dos povos.
Contudo, ditaduras violentas para seu próprio povo também são atentados à autodeterminação dos povos. Que povo autodeterminaria levar noventa e nove chibatadas por trocar apertos de mão ou usar calças? Como autodeterminar-se quando a própria menção a uma escolha é proibida?
Penso que a maneira europeia de tratar as relações internacionais seja mais positiva que a maneira americana, em especial em relação a nações com apego maior à religião. O sistema puramente punitivo tende a criar maior atavismo, um repúdio mais profundo e duradouro a influências estrangeiras, vistas como interferência não de um povo igual, mas de um poder hostil. Uma política integracionista, com incentivos ao exercício pleno dos direitos humanos, conseguiu integrar sessenta milhões de turcos à União Europeia. Aliás, a atual política internacional europeia em muito diverge do que foi em séculos anteriores. Não custa lembrar que o Islã tem hoje quase a mesma idade que tinha o cristianismo quando os europeus lançaram-se às cruzadas. Inclusive São Luiz tinha como um dos principais objetivos em sua cruzada destruir os vestígios da biblioteca de Alexandria, o qual teria sido plenamente cumprido não fosse pelo senso de conservação dos sábios árabes.
Assim como foi função dos muçulmanos preservar livros antigos da sanha religiosa dos europeus no passado, e transmitir essa sabedoria na clandestinidade, talvez seja nosso momento de retribuir o favor, permitindo aos nossos irmãos muçulmanos que conheçam uma sabedoria diferente, não por meio de uma imposição que instigue a desconfiança, e sim por meio de uma cooperação que incentive a boa vontade e a cooperação.
O Islã está próximo da idade em que iniciamos nosso Renascimento e nosso Iluminismo. Todos os povos que seguem essa religião merecem recuperar o tempo em que viviam em harmonia e tolerância entre si e com o restante do mundo. Uma civilização que nos deu Averróis e Khayyam merece o seu próprio Iluminismo.


Amâncio Siqueira

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Um rei mago


A Ceia das Cinzas

Livro Um

Capítulo Um

Os Reis Magos

(...)

Falar que chora o coração é mais que pura metáfora. Nosso coração pranteia mais do que poderiam nossos olhos suportar. Felizmente, não há vias naturais pelas quais possam esvair-se as lágrimas sangrentas que o coração derrama pelo nosso corpo quando lamuria-se no silêncio de uma dor aprisionada. Assim soluçaram os corações de Cristóbam e Felipa ao chegarem a Veneza, a belamente livre e livremente bela terra em que haviam batido ao mesmo ritmo pela primeira vez. A crônica sobrepusera-se à poesia de tal maneira que tais dias de felicidade pareciam pertencer a outros. A antiga felicidade ficou-lhes ainda mais alheada quando Cristóbam descobriu por intermédio de seu banqueiro que não havia qualquer ordem de pagamento em seu benefício. Seus corações choraram o desgosto de um paraíso perdido e de uma traição que os impediria de reavê-lo.

Somente o indulgente auxílio de Ariosto poderia salvaguardar aquela família errante. Os corações murmurando uma súplica, abalados pela expectativa, finalmente ultrapassaram a Porta Degli Angeli e viram-se cercados pelas seguras muralhas de Ferrara. A família Este transformara toda a cidade num gigantesco monumento em homenagem à arte e à ciência. Em meio à suntuosidade dos palácios e obras de arte, não era difícil identificar a simples casa de Ludovico Ariosto, com sua fachada de tijolos avermelhados e as nove largas janelas gravitando em torno de uma grande porta ovalar. Cristóbam leu a inscrição da fachada antes de bater: “Parva, sed apta mihi, sed nulli obnoxia, sed non sordida, parta meo, sed tamen aere domus”. Relembrou o orgulho que aquele homem sábio e importante guardava pela sua casa simples, porém aconchegante e, o mais importante, comprada com seu próprio dinheiro. Recobrou a esperança de auxílio de um homem simples e bom, e bateu a aldraba.

O largo e bondoso rosto de Alessandra Benucci surgiu na porta entreaberta, e logo expandiu-se num largo sorriso que os envolveu no aconchego da casa. Em poucos instantes surgia Ariosto de braços abertos, ao abraço de Cristóbam e Felipa. A simpatia entre o idoso e a criança foi mútuo. Antes que Cristóbam pudesse explicar a visita, o poeta falou-lhe:

– Lembra-te do meu poema Orlando Furioso? Acabo de receber alguns exemplares de sua edição definitiva – ao menos assim espero. Espera que já te trago um.

Daí a instantes voltou com um grosso volume ricamente encadernado.

– Dedicar-vos-ei este volume.

– Temo não poder pagá-lo por agora, Don Ludovico.

– Ora, Cristóbam. Não te devo dinheiro e nem poderia, já que não devo a ninguém. Contudo, contraí outras dívidas contigo. Vosso amor muito me inspirou, de modo que há versos nesse livro que vieram de tal fonte. Percebi que em eras de loucura é preciso lutar e amar loucamente. Quando assisti a vosso matrimônio, percebi quanto o amor é importante. Aceitai, se não como presente para vós, como um legado para vosso filho. Vosso amor motivou-me a trazer Alessandra para cá, mesmo sob o risco de perder os benefícios eclesiásticos.

– Amigo, foi nosso amor que aqui nos trouxe, em busca de tua mercê, pois ele não foi suficiente para evitar nossa ruína.

– Seria demasiado fácil acalentar um amor louco se não houvesse riscos. Os riscos e as penas nos mostram o valor do prêmio. Não merecerei ser criticado se vos der pouco, pois dar-vos-ei o que puder dar.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Boas festas repletas de livros a todos

Não é à toa que diversos deuses escolheram nascer em vinte e cinco de dezembro. Mudança de estações, renovação do ciclo solar, a natureza se altera nessa época.
Não importa se as pessoas querem comemorar o nascimento de Shiva, Jesus, Dioniso, Hórus ou do Papai Noel, ou apenas reunir as pessoas amadas em volta do fogo familiar para rememorar os que se foram e reverenciar os que se vão, abraçados aos que conosco permanecem.
Boas festas e uma nova vida repleta de prazer e sabedoria.