segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

No sexo, a fome é quem sacia

Pintura: Gustav Klimt - Meio-friso de Beethoven

Quero teus seios nus em minhas mãos.
Teu gozo em meus lençóis.
Teu úmido desejo em meu deserto.
Tua boca em meu sedento.

Quero tua ardência queimando dentro.

Quero a homilia sussurrante dos corpos.
O ritmo obsceno dos quadris.

Quero tua pele, teu suor, teu cheiro, teus espasmos.
Quero tua língua em minha sede.

Quero minha carne tatuada de tuas mordidas.
Tuas deliciosas e dolorosas mordidas.

Oferto-te, inteira, a minha fome.

Por que hás de querer a minha fome?

Queres porque a minha fome te basta, porque a minha fome te sacia,
A minha fome te oferece extremos.
A minha fome te violenta, te oferece orgasmos.
A minha fome te oferece a delícia de prová-la.

Um gosto de sexo na boca.
Um gosto de boca no sexo.

A minha fome te farta.

No sexo, a fome é quem sacia.

Alessandro Palmeira

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Emoção do parto

Assim como às pessoas comuns comove assistir ao nascimento de uma criança nas novelas, aos escritores (ao menos à maioria deles) é emocionante presenciar o nascimento de um livro. Diria meu amigo Siqueira: "É o livro nascendo, depois de uma longa gestação na mente. O diferencial entre a opção do livro eletrônico e do livro físico ficará nas mãos dos autores, pois um livro baixado na internete não dá a mesma emoção para quem escreve, embora possa ser a mesma para o leitor."

Neste caso, embora concorde com suas palavras, não posso deixar de considerá-lo um tanto romântico, pois acredita que os autores influenciam o mercado editorial. Para românticos como nós, o vídeo poderá levar às lágrimas.

Trata-se do vídeo promocional da máquina Espresso Book Machine (EBM) - ou a "máquina ATM dos livros", como é descrita pela On Demand Books, dona do projeto.

Com ela, o consumidor pode escolher, mandar imprimir e montar qualquer livro de um acervo digital de quase meio milhão de títulos disponíveis. O processo é concluído em menos de cinco minutos. Enquanto o processo em off-set exige provas de fotolitos, impressão de uma placa (duas páginas) por vez, corte e colagem, além de um processo longo e complicado para confecção de capas coloridas (cada cor é impressa em separado), o equipamento faz tudo sozinho, após a escolha do título a ser impresso. Se a editora quiser manter empregos, pode ter um empregado para manusear o computador e outro para pegar os livros prontos.

Essas máquinas estavam sendo comercializadas diretamente para editoras, a um preço de cem mil dólares. Talvez isso explique porque são tão elevados os preços dos livros publicados pelo Clube de Autores. Com certeza o preço cairá muito. Basta analisarmos outras tecnologias que baratearam em mais de três mil por cento nos últimos cinco anos.

É a primeira vez que uma livraria britânica disponibiliza a máquina. Nos próximos meses, a Blackwell espera aumentar o catálogo para mais de um milhão de títulos. Além disso, a companhia quer elevar o acesso a livros protegidos por direitos autorais, que ainda compõem a minoria do acervo.

A tendência é que as grandes livrarias de todo o mundo disponham de um equipamento similar. Na falta de um título, a encomenda chega em cinco minutos. A cada cinco minutos, um novo parto para nos emocionar.

Socó Pombo

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O Eremita

Ilustração: Nick Mancine - Heres Mitta

Há tantos anos nascia um nobre bebê, condicionado ao luxo e à ostentação. Tornar-se Papa, seu destino. Cresceu em grandes palácios e alumiado de ricos candelabros, até que de tudo se cansou. Ou teria se esquecido de todas as juras de fidelidade que fizera aos seus pais e à riqueza? E falou o que gritava seu coração: “Como posso ser sacerdote, se jamais encontrei Deus?” O príncipe passou a viver enclausurado em seu quarto, sonhando paraísos.
Todos os pensamentos voltados para ele em uníssono clamavam: “Enlouqueceu o nobre príncipe”, “Deve estar endemoninhado”, “Seu espírito foi dominado por uma das feiticeiras que habitam os postigos imundos ao redor do palácio”. Outros pensamentos mais jocosos alegravam os aduladores mais invejosos: “O tolo sempre mostra sua verdadeira natureza...”, “Deram-lhe asas, agora quer voar para as coisas do Céu...”. E, quando todos se reuniam, ecoavam as mesmas palavras, numa harmônica repetição: “Ah, é uma pena; o nosso príncipe seria um grande Bispo...”, ao que se seguiam exclamações e longos suspiros melancólicos.
Porém, o nobre saiu do claustro apenas para dar uma decepção ainda maior ao Reino e à família real: abandonaria o palácio, a riqueza, a honra, a família e o império. E tudo em busca de algo que nem mesmo sabia se existia! Como cometeram a heresia de querer que aquele louco fosse Papa?
O príncipe partiu, coberto apenas pela roupa do corpo e as maldições do povo.
O filho ingrato passou a peregrinar pelo mundo, aprendendo coisas com as quais jamais sonhara. Aprendeu a nadar numa bela manhã em que se refugiara de alguns ladrões num lago, no qual quase se afogou. Colhia frutos à beira dos rios, aprendeu a fazer fogo e infusões com o povo das colinas; nadava com os peixes e partilhava suas aventuras com os homens. Substituiu os farrapos reais por peles de carneiro e comia carne de porco com cerveja. Escalou montanhas até a exaustão, respirando o ar rarefeito e puro, para ficar mais próximo dos céus. No cume, as geleiras derreteram, algumas plantas surgiram: tudo era belo. Nas montanhas, encontrou toda espécie de plantas venenosas e animais peçonhentos. Lá havia menos peçonha que no mundo dos homens. Percebeu que a serpente não tenta a ninguém: só os humanos podem expulsar-nos do paraíso.
“Meu Deus da Terra, o Paraíso é aqui!”, pensava consigo mesmo e, às vezes, compartilhava tal pensamento com as serpentes e as águias ou outros animais que se aproximavam. Até mesmo às plantas falava, até perceber que apenas os humanos se importavam com o que dizia. Parou de falar e apenas pensava: “Meu Deus, o paraíso é aqui.”
Até que as palavras foram perdendo seu sentido ante a verdade pura, e pouco a pouco ele foi deixando de falar até mesmo a Deus, pois este também não respondia. As palavras foram minguando em sua mente:
“Meu Deus, o paraíso!”
Deus, o paraíso!
Deus!
...!
Meu!”
E aquele passou a ser seu reino. Passou a comer apenas figos e mel silvestres e a nadar sob o sol da manhã. Em seu íntimo, aquela era a única forma de alcançar a salvação.
Alternavam-se as estações, mudavam as paisagens, os espaços modificavam-se, mas o tempo parecia o mesmo, estático e inabalável. Doravante, o príncipe sem reino não tinha pressa no nado, não recordava os nomes das espécies animais que o circundavam, não lembrava dos rostos, nomes, dos bens ou males dos humanos que conhecera. Esqueceu o significado da palavra salvação. Ainda mais só em sua velhice, guardava uma vaga lembrança dos motivos que o haviam levado àquele lugar e da felicidade que sentira em outros tempos.
Esquecera-se definitivamente das línguas dos homens, dos seus símbolos, códigos e normas, ouvindo com prazer a música da floresta e os sussurros da noite antes silenciosa. Até que lhe chegou uma serpente, animal formoso e inteligente, e sussurrou-lhe, em linguagem bifurcada, um sibilo silente e carregado de melancolia, sem que pudesse o velho eremita perceber que o escutava e compreendia: “Faz tempo que não falamos com Deus.”
Buscou meios de responder à serpente, até que dominou novamente sua língua e sua garganta, rouca e ressequida e, após articular sons sem sentido, por fim sibilou:
“Onde está?”
E a natureza calou à sua volta. E calaram-se as próprias batidas do seu coração. E o homem morreu sem jamais ter compreendido a ausência de deus.

Amâncio Siqueira

domingo, 13 de dezembro de 2009

Depois de livros queimados em Bauru, livros reciclados em Ibiribá



Duas toneladas de livros de uma biblioteca pública do Rio Grande do Sul viraram alvo de uma investigação.
Os livros da biblioteca de Ibirubá, no Norte do estado, foram encontrados dentro de uma empresa de reciclagem que funciona na cidade vizinha de Selbach (RS). Algumas obras já estavam destruídas e outras foram vendidas para colecionadores.
Os livros foram descobertos durante uma fiscalização ambiental em uma empresa de reciclagem em Selbach, município vizinho a Ibirubá. O dono da empresa, que não quis se identificar, disse que a compra do material teria sido feita na biblioteca pública do município, que estaria vendendo livros velhos. Parte do material que comprova a origem foi parar nas mãos de um colecionador, que frequentemente visita a recicladora à procura de documentos antigos. Todos com identificação da biblioteca.
– Chegamos lá e tinha muitos livros. O proprietário disse que eu poderia levar. Perguntei qual era o preço e ele me disse que custava R$ 0,40 o quilo, então carregamos 380 quilos – afirma o colecionador.
Na casa do colecionador foram encontradas obras literárias, coleções científicas, enciclopédias e até um livro ponto, todos com carimbo da biblioteca. A secretária de Educação de Ibirubá, Jussara Rodrigues, que também é responsável pelo acervo público, diz que não foi informada sobre o descarte.
O Ministério Público formalizou a reclamação e está investigando o fato.
Monteiro Lobato disse: "Um país se faz de homens e livros". Depois de uma bem sucedida campanha de extermínio dos livros, o que virá em seguida?
Socó Pombo

História da Eternidade

Pintura: Salvador Dalí - Desmame do móvel alimento

I


Na passagem das Enéadas que pretende interrogar e definir a nature­za do tempo, afirma-se que é indispensável conhecer previamente a eter­nidade, que — conforme todos sabem — é o modelo e arquétipo daque­le. Esta advertência preliminar, tanto mais grave se a julgarmos sincera, parece aniquilar toda a esperança de nos entendermos com o homem que a escreveu. O tempo é um problema para nós, um tremendo e exigente problema, porventura o mais vital da metafísica; a eternidade, um jogo ou uma fatigada esperança. Lemos no Timeu de Platão que o tempo é uma imagem móvel da eternidade; e isso é apenas um registo que a nin­guém distrai da convicção de que a eternidade é uma imagem feita com substância de tempo. É esta imagem, esta tosca palavra enriquecida pelos desacordos humanos, que me proponho historiar.

Invertendo o método de Plotino (única maneira de aproveitá-lo) começarei por recordar as obscuridades inerentes ao tempo: mistério metafísico, natural, que tem de anteceder a eternidade, que é filha dos homens. Uma destas obscuridades, não a mais árdua, mas também não a menos bela, é a que nos impede de precisar a direcção do tempo. Que ..ui do passado para o porvir é a crença comum, mas de modo nenhum é mais ilógica a sua contrária, a que foi fixada em verso espanhol por Mi­guel de Unamuno:

Nocturno el rio de las horas fluye
desde su manantial que es el mañana eterno...[1]

Ambas são igualmente verossímeis — e igualmente inverificáveis. Bradley nega as duas e avança uma hipótese pessoal: excluir o futuro, que é uma simples construção da nossa esperança, e reduzir o «atual» à agonia, o momento presente desintegrando-se no passado. Esta regressão temporal costuma corresponder aos estados decrescentes ou insípidos, enquanto qualquer intensidade nos parece marchar sobre o porvir... Bradley nega o futuro; uma das escolas filosóficas da Índia nega o presente, por considerá-lo incaptável. «A laranja está para cair do ramo, ou já está no chão», afirmam esses estranhos simplificadores. «Ninguém a vê cair.»

Borges

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

De deseducação e avaliações


"Se a boa escola é a que reprova, o bom hospital é o que mata."
Hamilton Werneck

Quando tinha seis anos ingressei na escola. Na primeira semana a professora entregou-nos alguns rolos de massa de modelar e pediu-nos que fizéssemos um prato com frutas. Nossa primeira natureza morta. Encantado com um elefante que vira na caixa de massas, decidi fazer o meu. A professora observou meu elefante, minha primeira natureza viva, e disse: “Ficou muito bom, Amâncio. Agora desmanche e faça a bandeja com frutas que pedi.” Desde então intuí que a escola queria me fazer igual aos demais. E segui o caminho da igualdade na escola, embora continuasse cultivando meu lado artístico em casa.
Qual a função da escola?
É uma questão a ser debatida de vários ângulos diferentes, desde o mais ideal ao mais pragmático, passando por nuances econômicas e sociais. Sem esquecer, evidentemente, o viés histórico. Como conheço pouco da realidade oriental, tratarei apenas de experiências do ocidente. Para que serviam as primeiras escolas, misto de universidade e preceptoria? Despertar a curiosidade e a inteligência, e ensinar aos aristocratas a liderança. Isso mudou drasticamente a partir do cristianismo, quando as escolas passaram a formar clérigos. Aprendiam ainda a liderança, pois eram comandantes do rebanho, mas já não podiam ser curiosos. A educação continuava acessível aos aristocratas apenas.
Por que se criou o sistema de notas? Porque as pressões sociais obrigaram os governos a oferecer educação estatal aos pobres. Como os pobres vinham de uma defasagem de saber em relação aos ricos, que contavam com preceptores e livros desde a mais tenra infância, o sistema de notas levava os pobres a atrasarem-se e desistir da escola, como até hoje ocorre. Então deduzimos que a escola burguesa serve para ampliar as diferenças sociais, e o Estado é participante ativo disso, pois oferece uma educação deficiente para os pobres, enquanto os ricos usufruem do melhor ensino superior - o público - depois de ter uma educação privada de qualidade.
Lembro-me de um fato já integrado ao ideário popular: uma professora numa prova fez a pergunta “Qual minha fruta preferida?”. Todos responderam maçã, com exceção de um, que respondeu uva. Este perdeu a questão.
Imagine se houvesse o sistema de notas na antiguidade grega: Platão teria reprovado Aristóteles, que não sabia apenas repetir o que o mestre dizia. O sistema de notas é muito útil para o controle social, pois obriga o estudante a macaquear o professor, ou ser reprovado.
Os filhos das pessoas que não estudaram são aqueles que continuam sem estudar, num círculo vicioso de divulgação maciça da ignorância.
Não é surpresa que os principais meios de comunicação se posicionem tão veementemente contra os sistemas de cotas. Não apenas porque seus funcionários mais eminentes se aproveitaram do sistema aristocrático para sua formação, mas principalmente porque os grandes grupos econômicos que patrocinam aqueles meios querem manter este sistema de separação das classes. A alta burguesia sempre quis substituir a aristocracia, e a forma mais democrática de fazê-lo é por meio da educação. Já não é o sangue que determina quem tem acesso à educação, mas o dinheiro.
A educação dividida em ciclos por séries/anos não apenas é injusta com os estudantes de nível mais baixo, mas também com o de mais elevado. A educação pública nivela por baixo. O estudante que já conhece os assuntos tem que esperar que os demais o acompanhem. Não pode seguir adiante. Neste sistema de freios e contrapesos, a inteligência e a curiosidade são preteridas diuturnamente.
Ninguém se pergunta por que a criança ingressa na escola cheia de perguntas e expectativas e sai entediada e feliz por não mais precisar estudar?
A escola se dedica desde o princípio a livrar o indivíduo de sua individualidade. Tira suas dúvidas não por respondê-las, mas por privá-lo da vontade de aprender. Em especial no Brasil, com uma educação tão próxima da igreja católica, dedicada não às dúvidas, mas às certezas. Trabalho próximo a uma escola cuja diretora diariamente obriga os estudantes a cantar músicas cristãs e rezar rezas do terço católico. É assim que funciona o nosso Estado laico.
Recentemente a União Europeia condenou a Itália a retirar os crucifixos das salas de aula, para não condicionar os alunos à religiosidade obrigatória. O Brasil segue o caminho inverso, fazendo acordos com o Vaticano.
A solução para a educação passa pelos professores, estudantes, pela família e o Estado. Um dos segredos seria o retorno ao método clássico, e quando me refiro a clássico não falo da escola tradicional, mas à metodologia grega: que o estudante não apenas repita o que lhe dizem; que construa seu conhecimento. Que possa comprovar o conhecimento que lhe é passado. Que tenha sua curiosidade aguçada. Que passe de nível de acordo com seu desenvolvimento pessoal e não fique condenado à mediocridade.
Que os indivíduos aprendam a individualizar-se. A buscar e propor soluções para os problemas. E que o conhecimento não seja uma questão de fé, mas de raciocínio.

Amâncio Siqueira

Escola destrói livros em Bauru

Foto: João Roberto Alcará

Dezenas de livros, entre eles clássicos da literatura mundial e livros de edições raras, foram jogadas no lixo por funcionários da Escola Estadual Ernesto Monte, em Bauru, a 345 km de São Paulo. Os exemplares estavam acondicionados em sacos plásticos e parte deles foi amontoada na sarjeta da calçada da escola, na Praça das Cerejeiras. Alguns, parcialmente queimados, tinham sido lançados numa caçamba de entulho.

O fotógrafo João Roberto Alcará, de 49 anos, que passava pelo local, ficou intrigado com a cena. Ele fez fotos do que considerava "um descaso com a cultura" e interpelou os funcionários.

Ao verem que ele fazia fotos, os funcionários ainda tentaram arrastar os sacos para o interior da escola. Alcará apanhou alguns exemplares, entre eles o livro "A Escola dos Robinsons", de Júlio Verne, editado em 1938. Um manuscrito na capa indica que a obra tinha sido ofertada à escola, em 1939, por Antonio Garcia. O livro traz ainda o carimbo da biblioteca da escola.

Entre os exemplares queimados, dois eram livros de história natural em francês. Alcará achou absurdo um estabelecimento de ensino se desfazer do que considerava "raridades", jogando no lixo. "Se não interessavam mais à escola, poderiam ter sido doados a outra instituição", disse.

Procurada, a direção da escola informou que apenas a Secretaria de Estado da Educação poderia se manifestar. Em nota, a Secretaria informou ter determinado à Diretoria Regional de Ensino de Bauru que faça uma apuração preliminar para averiguar responsabilidades e tomar as medidas cabíveis. "É importante destacar que a Secretaria repudia qualquer ação de desperdício do bem público", diz a nota.

A diretora estadual da Apeoesp em Bauru, Suzi da Silva, disse que, apesar de não conhecer o conteúdo dos livros, acredita que o ideal seria doar para outra escola os que ainda estiverem em bom estado.

“Vemos com certa frequência o governo comprando uma grande quantidade de livros e as escolas não têm mais onde colocá-los. Então, para arrumar um lugar para armazenar os novos, acabam descartando os que já têm”, diz Suzi.

Luiz Vitor Martinello estranhou a atitude e quer saber qual o critério de descarte dos livros. “Eu conheço a diretora e ela é incentivadora da leitura. Queria ver as razões da escola. Estou perplexo”, diz.

Para ele, rejeitar o livro porque é velho é como desrespeitar um idoso. Ele também compara descarte de edições antigas à extinção da fauna e da flora. “Tem livros que não há mais novas edições”, recorda.

Para ele, a não ser que os livros possam provocar doença ao leitor, não há motivo para queimar ou jogar no lixo.

Por telefone, ao reiterar a necessidade de conversar com a diretoria da escola, a assessora de imprensa Ana Laura Venerando foi enfática: “A posição oficial da Secretaria [estadual da Educação] é esta. A diretora não vai falar”.

Por que não doar os livros para outras instituições, públicas ou privadas? Os membros do Phallos conseguiriam um espaço para guardar os livros que a diretora considera imprestáveis.

Esta notícia é de dezembro de 2009, porém é um retrato do que ocorre historicamente em nossas escolas. Os próprios professores e funcionários das escolas, que deveriam ser os maiores incentivadores da leitura e defensores do livro, ateiam-lhe fogo como a um objeto maligno. A pior doença que ainda é epidemia no nosso mundo é a ignorância. É a mãe de todas as demais.

Socó Pombo

A minha morte se morreu


A minha morte cometeu suicídio em plena primavera. Achou-a a mais bela das estações. Desejava partir com cheiro de vida e jasmim.
A minha morte “se morreu”.
Quando o clima estava propício para o amor, a minha morte se matou. Quando os meus olhos pediam que viesse, ela resolveu partir. Não sei com qual roupa, não sei se a paisagem era propícia para tal encantamento. Não sei se ela me amava, se me queria perto, se meus lábios eram por ela desejados. Minha morte não deixou bilhete, testamento, nem romance escrito. A minha morte madrugou meu olhar. A minha morte não suportou o seu amor pela vida. Avistei minha morte pela primeira vez em uma mesa de bar. Ela tomava vinho tinto, tinha unhas escarlates, lábios rubros, cigarro entre os dedos e falava silente. Havia um outro copo sobre a mesa e um poema encharcado de vinho. Havia espera.
A minha morte me aguardava enquanto eu delirava para vida.
Queria saber sua idade. De quantas vidas havia provado. Por quantas vidas se apaixonou. Quantos amores a acometeram, quantos poemas lhe prestaram tributo. A minha morte me deixou um vazio absurdo. Com isso, pude compreender que ela também me era.
Ainda há companhia.
A minha morte me avizinha, mesmo depois de ida.

Alessandro Palmeira

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Os Jogadores - Parte II


Parece aos mortais este existir sem sucessos ou surpresas um infinito tédio. E assim o é, pois apenas no tédio reside a durabilidade do tempo.
Para os efêmeros deram os jogadores uma outra maneira de sentir a eternidade: a Poesia. Por meio de olhos de poeta pode o mortal transformar o mais pueril momento de tédio em tela de ímpar beleza. A beleza dá aos efêmeros um sublime e passageiro sabor de eternidade. E nisso consiste seu encantamento. Uma fugaz sensação de eternidade.
Consciências e instintos esfacelam-se a cada lance; entretanto, jamais uma única partícula deixou o tabuleiro. Tas partículas carregam em si toda a memória dos infinitos seres que compuseram. Ao fim do Jogo, antes que se vá por fim mais uma encarnação dos Arquétipos, os jogadores experimentam um riso de regozijo ao indagarem um elétron e descobrir que este foi estrela, alga, celacanto, verme, água, crocodilo, espinossauro, bactéria, relva, macaco, tigre, criança e verme. Ao término do existir, espantam-se com a beleza dos acasos de jogadas que conduziram ao já esperado fim.
Nos milhões de jogos que são um só Jogo há algo em comum: todas as centenas de jogadas sobrepostas, pensadas e pesadas, culminam num inesperado clímax de vazio e sensação de improviso e surpresa.

Amâncio Siqueira

Vendedores de ilusão

Garantem vendedores de ilusão
que lá longe,
no Além,
há o que chamam o Paraíso,
com soberbos varões,
huris voluptuosas,
ardente, capitoso vinho,
leite puríssimo,
delicioso mel feito de sol.

Servo, servo!
Para celebrar todas essas maravilhas,
dá-me a taça
transbordante
do vinho cor de rubi.

E ouve:
prefere sempre
uma prenda segura,
uma só,

a cem tesouros hipotéticos
ou mil vagas esperanças infundadas.



Omar Kayyám