
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Posesíon del ayer

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Da série: pequenos orgasmos
Do filósofo e dos técnicos
Pintura: Rembrandt - Filósofo em meditação Cada vez se faz mais difícil gerar-se um filósofo no seio da universidade. Criam-se, sim, muitos cientistas, das mais diversas disciplinas, mas me parece que o filósofo deverá abster-se do ensino superior se quiser desenvolver sua sabedoria. O cientista é muito importante para o mundo, e sou adepto ferrenho das ciências, porém não posso deixar de concordar com Nietzsche, quando diz: “Uma segunda qualidade do cientista é a perspicácia para com as coisas próximas, unida a uma forte miopia para o que é distante e geral. Seu campo de visão é geralmente muito restrito e tem necessidade de aproximar o objeto de seus olhos, até tocá-lo. Se quer passar de um ponto já estudado a outro, dirige para esse novo objeto seu aparelho visual inteiro e decompõe a imagem em fragmentos mínimos. (...) Se, por exemplo, se tratar de julgar um escrito, como é incapaz de abrangê-lo em seu todo, ele o julga de acordo com alguns fragmentos, algumas frases ou alguns erros. Seria tentado a afirmar que um quadro é um amontoado incoerente de manchas coloridas.”
Os cientistas que se formam nas universidades são como seres humanos deficientes: Têm um órgão, seja o olho, a língua ou a mão, hipertrofiado, de excelente utilidade, enquanto o restante do corpo é atrofiado, quase inútil. Assim se dá a formação do cientista: de modo a torná-lo um sábio em uma determinada área e um tolo nos demais conhecimentos que compõem a universalidade da cultura humana.
O cientista será incentivado a ler publicações especializadas, a frequentar fóruns e cursos especializados, a atualizar-se em sua área especializada. A especialização determina cada vez mais as práticas, essas cada vez menos abrangentes e mais isoladas do contexto maior. O cientista que haja assim até pode dizer: sim, de fato é assim, porém estou contribuindo, na minha área, para o bem da humanidade. De fato. Contudo, direi que há males que afligem a humanidade que não residem numa área específica, mas naquilo que há de universal, e que a pulverização do saber torna cada vez mais difícil diagnosticar.
E há ainda o fato de a maioria dos nossos universitários não estar se formando cientistas, mas técnicos. E seguem a mesma rotina do cientista, com leituras, cursos e simpósios específicos de sua carreira. Estes sequer podem dizer que seus esforços levam à descoberta de algo substancial para a evolução da espécie, pois todo seu conhecimento volta-se apenas para sua melhoria financeira, para sua profissionalização.
Neste contexto, surge fora da universidade o gênio que enxerga na especialização, na profissionalização, um desvio de seu curso. Sua mente é um rio caudaloso, poderoso e destrutivo, e a especialização levá-lo-ia a um desvio represado, a transmutar seu raciocínio em um lago de águas paradas, controlado pela brisa dos financiamentos governamentais e contido pelas fixas margens da opinião pública, da orientação da faculdade e dos interesses comerciais.
Na universidade o novo não significa uma quebra do paradigma, mas um aprofundamento do velho para obtenção de maior lucro com maior segurança.
O filósofo não tem interesse no lucro e odeia a segurança. Não se aterá às publicações específicas ou sequer à leitura do jornal diário para compreender o mundo atual, pois sabe que o mundo atual é resultado dos mundos de ontem e anteontem, e muitas vezes inclusive do que se espera do de amanhã. Exercerá uma profissão apenas para ter a independência em suas pesquisas, sem o patrocínio do comércio ou do estado. Buscará um conhecimento de abrangência universal, não para tecer generalizações, mas por saber que tudo está interligado e é preciso compreender a junção de todas as cores para que se possa compreender e apreciar o quadro.
O filósofo sabe que na história, assim como são necessários cem acasos para conceber um destino, são precisos mil destinos para conceber um acaso. Este último acaso, porém, o seu acaso, traz em si um destino. Um destino para além de tudo que é convencional, inclusive sua própria vida.
Um verdadeiro filósofo, desses que surgem no nosso planeta um, no máximo dois a cada século, não terá compromissos outros que não seu compromisso pessoal com sua verdade e com a elevação do gênero humano. Nada teme, a não ser perecer antes de ver concluída sua obra. E sua obra é dinamite, pronta a implodir os alicerces de toda a verdade até então aceita, inclusive a verdade das classes, dos estados e das universidades.
sábado, 5 de dezembro de 2009
Bartleby e a escrita
No livro Bartleby e Companhia o escritor Enrique Vila-Matas utiliza o personagem criado por Herman Melville para nomear um estado de espírito próprio de alguns escritores: o fato de abandonarem a escrita. Assim como o personagem, o escritor passa a dizer para si mesmo, diante do papel: Prefiro não fazer.
A despeito de apreciar falar de escritores clássicos e fazer a minha crítica de obras consagradas, não é sobre o livro em si, ou sobre o livro que inspirou a nomenclatura de Síndrome de Bartleby; nem mesmo sobre os escritores famosos que sofreram desta síndrome que desejo falar. Desejo aqui fazer um estudo de caso com os próprio colaboradores do Phallos, em especial dos criadores desta ideia.
Remontemos, primeiramente, a um período de uma década atrás, quando os criadores do Phallos decidiram enveredar pelo caminho da literatura. Alessandro Palmeira, com seu Amor, Abstrata Loucura, foi o primeiro a publicar, seguido no mesmo ano 2000 por mim e Jean Wagner, que publicamos o livro Lixismo – Uma busca pelo esquecido, embora o Movimento Lixista tenha sido engendrado por Amâncio Siqueira e Márcio Jardson, que participaram do livro com alguns textos. Siqueira prefaciou ainda o livro de poemas Vidas em Versos, da poeta Vanda, e publicou poemas e contos em jornais e antologias, além de prometer já ter o esqueleto de uns seis romances. Nesta mesma época Edgar Cruz escrevia alguns textos, tendo prefaciado o livro de Palmeira, embora não nos mostrasse nenhum livro em perspectiva.
Estávamos todos entre os dezessete e os vinte anos, e no horizonte havia um futuro brilhante, pois sob nossos pés havia os alicerces de uma grande escola literária, de homens (pois no fim da adolescência já assim nos considerávamos) que influenciariam o mundo. Na minha opinião Jardson e Cruz poderiam merecer o Nobel, se continuassem a escrever como escreviam. Tamanha efervescência criativa germinou de tal maneira, que alguns meses depois criamos o periódico Phallos. Palmeira apresentou a ideia de um jornalzinho estilo suplemento cultural, só que prenhe de criatividade e irreverência. Sugeriu o título Phallos, e Amâncio e Márcio não titubearam: a homenagem a Jung, ou Basílides, era mais do que devida, pois fora uma de suas inflências.
Estes caras nunca nos perguntaram se concordávamos com algo, e nós sempre concordamos. Não apenas concordamos, como mergulhamos felizes na empreitada. Jardson, que era o único que tinha trabalho e acesso a computador, editava o periódico de oito páginas. Siqueira era responsável pela digitação e correção, que fazia no local de trabalho de Jardson, a Secretaria da Fazenda. Palmeira era o editor-chefe e conseguia “patrocínios”, ou seja, cópias gratuitas. Sim, o Phallos começou como um periódico impresso em preto e branco, formato ofício dobrado, fotocopiado e distribuído gratuitamente na faculdade de Afogados da Ingazeira. Entre seus colaboradores, além dos citados, Bruno Senhor e Josué Manfredine.
Sim, e até agora o texto pouco tem de comum com o título. Aqui vem a reviravolta, pois é onde se encaixa a síndrome de Bartleby.
Todo o arroubo criativo, o afã de escrever, a multiplicidade dos assuntos, durou apenas quatro meses.
E não foram quatro meses de publicações semanais ou diárias: o Phallos era mensal. Quatro edições de oito páginas cada foram tudo o que conseguiram aqueles inspirados escritores na mais calorosa juventude. E o Phallos caiu. Emurcheceu-se. Perdeu o tesão.
Foi um hiato de quase dez anos entre sua última ereção impressa e sua primeira ereção virtual. E, incrivelmente, a síndrome de Bartleby ainda ataca nossos colaboradores. Mesmo o Palmeira, que publicou dois livros desde aquela época, sente o peso de tal síndrome. Criou um blogue pessoal, porém deixou o mesmo falecer há um ano, e o seu Prece ao Pecado deixa entrever a fadiga do processo criativo: o romance de espetacular premissa torna-se quase um conto de escrita fragmentária. Siqueira finalizou um dos seus romances em 2005 e novamente perdeu o gosto pela escrita. Os demais sequer produziram algum material nesta década. Seus textos publicados aqui são os mesmos que circularam no Phallos impresso, material esgotado e sem renovação.
Há muitas causas para que o escritor desenvolva o desejo de não escrever, ou perca o desejo de escrever. Desde o esgotamento das palavras, que já não representam tudo que vai em seu íntimo, até a ausência do reconhecimento que acredita merecer, passando pela constatação de que nada do que diga é de fato novo, a extrema humildade de acreditar que não escreve lá grande coisa, a falta de inspiração (há escritores que acreditam na inspiração) e a preguiça. Há ainda causas externas, como uma vida normal. Sim, a normalidade é terrível para o escritor. A necessidade de conseguir um emprego para sustentar-se, a felicidade de um princípio de namoro, a atuação num partido político, a atenção a esposa e filhos, tudo, enfim, que diz respeito à família é um risco para a carreira do escritor. Concordo com Siqueira, quando diz que “a família é a nulidade básica da sociedade”.
Eu mesmo pouco tenho escrito, e quando sai algo é apenas uma crítica a livros ou filmes que gostei. Tem faltado algo de pessoal em mim, algo do arrebatamento que já tive.
Tudo parecia novo: uma nova instigação, um recomeço, uma primavera criativa depois do longo outono se apresentou quando Siqueira, decidido a não voltar a ser normal, a buscar finalizar sua obra e publicá-la, procurou-nos por emeio com a ideia de relançar o Phallos na forma de blogue. Dizia no corpo da mensagem: Voltaremos a escrever, ou nosso Phallos permanecerá deitado eternamente em berço esplêndido?
Todos nos empolgamos, como retornasse o tesão literário da juventude. Todavia, passados novamente quatro meses, nossos colaboradores caem no ostracismo, e mínguam os textos.
E não são apenas os antigos colaboradores que penam para escrever: o novo colaborador Tiago Caldas produziu um único texto e já não envia nada. Para a nossa seção feminina foi convidade a poeta Izabel Goveia, que ainda não enviou seu texto de estreia.
Não faço aqui um apelo aos nossos colaboradores, mas ao leitor: peço-te que compreendas que o processo criativo é difícil. Cada texto dói como um parto, e nem sempre a criança é isenta de maus congênitos.
Haveremos de produzir mais, mas por enquanto esperamos que seja agradável a leitura dos poucos textos que temos disponibilizado.
E aguardamos um tratamento eficaz contra a síndrome de Bartleby.
Socó Pombo
Os Jogadores - Parte I

Pecado
Góngora

Marte, la guerra. Febo, el sol. Neptuno,
el mar que ya no pueden ver mis ojos
porque lo borra el dios. Tales despojos
han desterrado a Dios, que es Tres y es Uno,
de mi despierto corazón. El hado
me impone esta curiosa idolatría.
Cercado estoy por la mitología.
Nada puedo. Virgilio me ha hechizado.
Virgilio y el latín. Hice que cada
estrofa fuera un arduo laberinto
de entretejidas voces, un recinto
vedado al vulgo, que es apenas, nada.
Veo en el tiempo que huye una saeta
rígida y un cristal en la corriente
y perlas en la lágrima doliente.
Tal es mi extraño oficio de poeta.
¿Qué me importan las befas o el renombre?
Troqué en oro el cabello, que está vivo.
¿Quién me dirá si en el secreto archivo
de Dios están las letras de mi nombre?
Quiero volver a las comunes cosas:
el agua, el pan, un cántaro, unas rosas…
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Ação de graças
Segue a transcrissão deste belíssimo momento de fé:
Pai, eu quero te agradecer por estarmos aqui. Sabemos que nós somos falhos, somos imperfeitos. Somos gratos pela vida do Durval por ter sido instrumento de bênção para nossas vidas, para essa cidade, porque o Senhor contempla a questão no seu coração. Tantas são as investidas, Senhor, de homens malignos contra a vida dele. Nós precisamos da Tua cobertura e dessa Tua graça, da Tua sabedoria, de pessoas que tenham armas para nos ajudar nesta guerra. Todas as armas podem ser falhas, todos os planejamentos podem falhar, todas as nossas atividades, mas o Senhor nunca falha. O Senhor tem pessoas para condicionar e levar o coração para onde o Senhor quer. A sentença é o Senhor quem determina, o parecer e o despacho é o Senhor que faz acontecer. Nós precisamos de livramento na vida do Durval, dos seus filhos, familiares.
Os autores deste testemunho do poder de deus são o deputado Rubens César Brunelli, Barbosa e Leonardo Prudente. Agradecem ao senhor o recebimento de uma honesta propina. O que mais me surpreendeu é que aparentemente eles acreditam mesmo em deus. Pensava que o usavam apenas para enganar os tolos.
De criação e patrocínio ou independência e morte
Pintura: Delacroix - A Liberdade Guiando o PovoAinda não havia os grandes conglomerados econômicos, as gigantes multinacionais. O ciclo do petróleo apenas assinalava seu início. Nietzsche, com sua argúcia, ao analisar os métodos de fomento à cultura que seguiam ainda um modelo de mecenato corrente desde o renascimento, anteviu, porém, como o “egoísmo das classes comerciantes” cercearia a independência da produção cultural nos anos vindouros. Enquanto o modelo de patrocínio aristocrático incentivava a elevação do indivíduo pela cultura, o modelo burguês determinaria que a cultura tivesse dois únicos objetivos: distrair as classes baixas e expandir as possibilidades de lucro.
A cultura de massas, rigorosamente controlada por grandes empresas midiáticas patrocinadas pelos conglomerados econômicos, não pretende que um único indivíduo torne-se superior, que em sua solidão indague-se sobre os valores da sociedade em que está inserido e na sua independência desafie o status de ditadura de mercado em que vive. Em verdade, a solidão é bombardeada como um mal, algo a se combater. Os indivíduos são levados a crer que não relacionar-se virtualmente com milhões de indivíduos tornados moeda corrente é o caminho para o esquecimento e para a depressão. Só há cultura se o indivíduo pulveriza sua personalidade entre bebidas alcoólicas em lugares barulhentos. Quem não se despersonaliza para seguir a moda é excluído, pois a diferença, perigosa para os interesses econômicos, recebe a pecha de perigosa também para a sociedade.
Empresas gestam e procriam a ideia de que seus interesses são os interesses da nação. E já não é o público que determina que bens consumir, pois ninguém pode comprar um livro que não chega às livrarias ou um cd que não é reproduzido.
Outro aspecto dessa arte patrocinada é o esvaziamento da reflexão da realidade. Quanto mais distante da realidade, quanto menos reflexiva, mais a produção cultural tem chances de ser patrocinada e difundida. Se não puderem ser megaproduções estrangeiras, ao menos que sejam músicas com muita luz, muito erotismo e barulho, para que ninguém tenha espaço para pensar.
Os poderosos do mundo econômico derrubaram as monarquias para tomar seus lugares, e os artistas tornaram-se menos que bobos, pois já não podem, mesmo que humoristicamente, criticar seus patrões.
Aldous Huxley, na obra Admirável Mundo Novo, previu uma sociedade controlada, na qual os dissidentes seriam isolados em ilhas. A cultura já se encontra neste ambiente de controle, visto que artistas independentes são relegados a ilhas dentro do continente, a bolsões de cultura, fora dos quais não possuem qualquer visibilidade. O isolamento não se determina pela qualidade da obra, mas pelo conteúdo discursivo. Ou o artista esvazia seu discurso, ou sua obra não ganhará abrangência. O artista que quer aprofundar seu tema corre o risco do desaparecimento.
O que a sociedade ainda não percebeu e talvez só o perceba quando já for muito tarde é que este modelo pode disseminar-se para todos os âmbitos da vida social. Quando um profissional discordar das práticas de mercado de determinado segmento, poderá ser preterido por todas as empresas deste segmento, pois pertencerão todas a um único cartel global. Pode haver concorrência dentro das práticas, mas as práticas tendem a homogeneizar-se. Os interesses serão sempre os mesmos: a ditadura de um modelo de consumo sem a perigosa individualização. A moda da massificação, de seres padronizados, coletivizados.
Já não cabe ao artista falar de independência ou morte, pois, a não ser que encontre um emprego para sustentar-se e tornar-se mecenas de sua própria obra, ser independente significará de fato a sua morte. A menos que consiga viver de donativos de piedosos burgueses.
Da série: pequenos orgasmos
Pintura : Rufino Tamayo - La Gran Galaxia*São tantas vozes meu silêncio.
*Meus poemas possuem desejos de pássaros.
*Gosto de dar nome aos silêncios das coisas.
*Ensina-me a mendigar teus olhos, esse jardim.
*É-me tão próximo, tão dentro, o rumor de tua ausência.
* Tua ausência é meu nome.

